Não consigo e não quero esquecer
9 August, 2010 by Carlos Moura-Carvalho

Cheguei ontem de férias e tal como faço inevitavelmente nos últimos anos, quando o avião aterrava, olhei para a Alta de Lisboa.
Durante 6 anos, a expectativa por uma mudança, pequena que fosse, sobreponha-se a muitas coisas e o meu olhar dirigia-se para lá. Mais um quilómetro da Av. Santos e Castro, mais uma demolição, mais um andar construído, mais árvores, mais pessoas, mais qualquer coisa, tudo servia de estímulo para um coração apaixonado. E já toda a família brincava com o assunto e competia para anunciar as boas novas.
Este ano senti algo diferente. O olhar e a busca de alguma novidade mantiveram-se da minha parte, mas ninguém comentou o assunto, ninguém falou na Alta. E como gosto de perceber os porquês e de questionar as razões, resolvi perguntar. E a resposta fria e realista veio do meu filho mais novo. Esquece isso pai!
Ninguém disse mais nada e provavelmente não era preciso. Afinal, todos acompanharam bem de perto o nosso viver na alta, a dinâmica e energia, as permanentes novidades, a paixão, numa fase, e depois a estagnação, o desinteresse, a mentira e a calúnia, numa segunda fase. E acompanharam as razões que me levaram há um ano, a uma grave e complexa depressão e ao meu subsequente afastamento voluntário da SGAL. Cansado de inquéritos, de mentiras, de jogos políticos caluniosos, de perseguições pessoais.
Tenho dito nos últimos anos que, enquanto este executivo camarário liderado por António Costa, Manuel Salgado, José Sá Fernandes, Helena Roseta, Nunes da Silva e sua equipa, liderar, Lisboa vai estagnar. E em particular a Alta, é minha profunda convicção que vai intencional e deliberadamente ser esquecida e tudo vai ser feito para que o contrato existente entre a CML e a SGAL para urbanizar 300 hectares da cidade, acabe.
Se fizerem um rápido apelo à vossa memória, verificarão que os factos, os inúmeros factos que têm acontecido desde que Manuel Salgado assumiu em termos urbanísticos os destinos da cidade, com uma equipa de experientes arquitectos pertencentes há muitos anos aos quadros da CML, comprovam a afirmação. Enfraquecimento dos poderes da UPAL, manutenção de um embargo falacioso (Lx), atraso na aprovação dos projectos (Malha 16 e 17), não desbloqueamento de situações, ruptura e não cumprimento de compromissos anteriores, recurso à mentira (quem não se lembra da afirmação de António Costa em vésperas de eleições que a situação da Av. Santos e Castro estava resolvida), reanálise de projectos prontos a arrancar (Porta Sul), gestão do dossier Centro Social da Musgueira, etc, etc. etc. Como curiosidade, veja-se esta noticia de Fevereiro de 2009 do própio site da CML: http://www.cm-lisboa.pt/?idc=42&idi=41642.
Sempre que confrontados, lá vieram as manobras de diversão, os ataques ao passado, a justificação da falta de dinheiro. Mas a verdade é nua e crua. Há muita gente que não entende o contrato CML/SGAL, não quer entender, não gosta que ele exista e tudo fará para que deixe de existir. E a SGAL durante bastante tempo, nos últimos anos, tem caído na teia ardilosa que lhe foi montada. Por culpa própria.
O projecto que um dia Abecassis idealizou e que com altos e baixos foi progredindo em mais de 20 anos atingiu um ponto de morte latente.
Quando em 2003 tomei contacto directo com o projecto, com o contrato, com o modelo de urbanização, fiquei fascinado com o seu potencial e surpreendido por, na altura, há 7 anos, se discutir se a Av. Santos e Castro tinha 2 ou 3 faixas para cada lado, se a Porta Sul passava por cima ou por baixo da 2ª Circular, porque é que o Parque Oeste tinha um projecto em aprovação há 5 anos, porque é que a Quinta das Conchas tinha 3 projectos feitos e nenhum executado e porque é que havia tanta gente a dizer mal do projecto. Era comum ouvir dúvidas, hesitações, insinuações, suspeitas. Durante algum tempo, tudo isso foi afastado, varrido, passado para trás. Mas não foi esquecido. E na primeira oportunidade ressuscitou.
Era mais fácil ficar calado e esquecer como disse o meu filho António. Era seguramente melhor para mim. Mas não é assim que penso. Nada me garante que as coisas seriam diferentes com aqueles que hoje são oposição e que enquanto tal pouco e bem têm feito. Mas o que sei é que enquanto muitos dos actuais protagonistas se mantiverem em cena, Lisboa e em particular a Alta, vão estar em morte lenta, paradas, estagnadas, moribundas . E também sei que as coisas podem ser diferentes, que podem resultar, melhorar.
Isso não consigo e não quero esquecer. Por formação e maneira de ser, não gosto de me conformar à inércia, odeio injustiças e jogos de bastidores e não gosto de não cumprir o que as normas, sobretudo as morais, ditam. E, sobretudo, aborrece-me que por interesses difusos e caprichos pessoais se prejudique e desrespeite tanta gente.
E isso eu não consigo e não quero esquecer.



se a Alta é assim o que dizer da Ameixoeira!!!
Alguma vez se ouviu, da parte do Vereador M. Salgado, uma explicação fundamentada para a decisão de rasgar o projecto existente e fazer(???) de novo?
Justificação fundamentada não ouvi. A primeira explicação era que podia haver uma solução melhor aproveitando o interior da rotunda. Depois, a explicação era que não podia ser a SGAL a fazer e tinha de ser feito um concurso internacional. Depois, que afinal era muito cara.
Convém ter presente que a Porta Sul é a entrada/saída mais importante da Alta, que faz a ligação com a cidade mais consolidada. Quando cheguei à CML em 2003, o processo estava parado e tinha havido mais de cinco versões feitas pelo Arq. Eduardo Leira. Em 2004, foi aprovada uma solução final, com pareceres favoráveis de todos os departamentos da CML. Em 2005 foi escolhido um empreiteiro de uma lista de empresas de construção fornecida em grande parte pela CML. E foi escolhido um empreiteiro por uma "comissão" constituída por membros da SGAL e da CML. Que ía começar a obra, quando Manuel Salgado e a sua equipa de experientes arquitectos e engenheiros, decidiu recomeçar tudo de novo. Até hoje…
Obrigado Carlos por não esquecer.
Bastar tirar uns dias de férias e passear um pouco pelo país. Por cidades, vilas ou aldeias. Grandes como o Porto ou pequenas como S. João de Tarouca. Percebe-se imediatamente como Lisboa está tão mal servida com os seus autarcas.
Este email (http://www.viverlisboa.org/?p=7898) foi enviado há mais de dois meses para a CML. Não recebemos aqté ao momento qualquer resposta.
Espero bem que implantem a solução provisória rapidamente pois acho que vamos ter que esperar muito por uma solução definitiva para a porta sul. Notícias recentes dão conta que a CML quer transformar a 2ª circular numa avenida urbana. Acho bem, uma vez concluída a CRIL (também ninguém sabe quando) deixa de fazer sentido existir uma via rápida que estropia a cidade. Lembro-me de visitar Barcelona há mais de 15 anos e a av. Diagonal – a 2ª circular lá do sítio -era uma via rápida; hoje é uma avenida de distribuição de trânsito mais lento e acima de tudo uma via de circulação pedonal, de bicicletas e de eléctricos de superfície.
Além disso, o ministério da saúde quer acabar com os centros psiquiátricos, logo o Júlio de Matos vai desaparecer por volta de 2017.
Com estes dados vamos ter mesmo que esperar muito pela porta sul, que provavelmente será um cruzamento-rotunda normal, pois toda aquela área será alvo de urbanização.
A ver vamos.
Daqui a 5 anos voltamos a falar. Eu digo que nem a 2ª Circular se vai transformar numa avenida urbana, nem o Hospital vai sair dali.
A razão é simples: quando Manuel Salgado tomou posse, passado uns meses, nomeou uma comissão em que fazia parte um dos seus colaboradores, o Eng. José Reis, profundo conhecedor do processo da Porta Sul e critico de muitas soluções durante anos adoptadas pela CML, que apresentou diversas propostas concretas para a 2ª Circular. Estamos em 2010 e ainda nenhuma foi implementada…
Há 16 anos, uma Ministra da Saúde tentou encontar uma solução para urbanizar o Hospital Júlio de Matos. Falhou. Até hoje.
O Arq. Eduardo Leira, desde que elaborou o PUAL, tem uma série de estudos para a zona. Que nunca foram implementados.
Desejo, com sinceridade estar enganado. Mas creio que daqui a 5 anos nenhuma das alterações que falou estará concretizada.
A não ser que mude o Executivo e sejam afastados muitos dos técnicos e dirigentes que se perpetuam na CML.
Carlos, tem toda a razão. Daqui a 5 anos ainda não vai haver nada disto. Se calhar nem daqui a 15. Acho é que estas 2 variáveis vão atrasar ainda mais qualquer solução definitiva da porta sul. Ainda para mais quando já ouvi o Arq. Manuel Salgado dizer que tinha o sonho de unir os 2 eixos centrais de LX algures naquela zona (av. novas e eixo da almirante reis). Contudo, concordo com a reformulação da 2ª circular. Já quanto à transformação do Júlio de Matos não tenho conhecimentos para expressar uma opinião. É o medo constante que os nossos governantes têm de tomar uma decisão. Estão sempre à espera de um novo factor, de um novo estudo. Já para não comentar outros interesses que podem alterar as prioridades. Por isso digo: façam a provisória, pelo menos dá outro ar e fluidez àquela entrada tão importante. E já agora Carlos, ainda bem que não se esqueceu…
A questão Júlio de Matos (aliás como a do Aeroporto da Portela) não tem a ver com a utilização específica dos terrenos, quando foram doados?
Sinceramente não sei, mas pode ser. O que não impediu, que há uns tempos se falasse em transformar os terrenos do actual aeroporto num grande parque do tipo Monsanto…
Além disso, em sede de PDM (o tal que em Lisboa está em revisão há anos e anos e anos) e de outros instrumentos de planeamento e gestão territoriais, pode haver ajustamentos e alterações de usos. O problema não creio ser jurídico e sim de mentalidade, de postura, de capacidade, de vontade.
se o julio de matos for extinto todos aqueles terrenos voltarao aos familiares mais proximos da pessoa que os doou ,pelo menos é o que se comenta nos corredores onde trabalho,
Com o devido respeito por melhor opinião contrária, deixem lá estar o Hospital Júlio de Matos pois prevejo que ainda me possa vir a ser útil quando me passar de vez por me sentir encarcerado diáriamente no local onde moro, condenado que estou a filas de trânsito que me enervam de uma tal maneira que por vezes até sou levado a dar graças por não mandar da maneira que às vezes gostava para entre outras coisas……por exemplo perguntar a esta numerosa PSP local porque não auxilia o trânsito das 07.00h às 09.00Horas ???
Fomos bem enganados por esta gente!
De 6 em 6 meses, quando chega a carta para pagar o IMI, lá me lembro das promessas feitas. Depois, para manter a saúde mental faço por me esquecer de tudo isto. Afinal, a Alta de Lisboa não é mais do que uma operação imobiliária para alimentar um pouco mais a especulação imobiliária – aquilo que está a matar a vida urbana da região de Lisboa há décadas. É lamentável!
Será que interpreto bem? O que estão a fazer ao longo da saída "provisória" para a 2ª circular é uma caleira para sarjetas e já começaram a fazer um passeio perto dos semáforos? Se assim é só pode significar a eternização da solução "provisória"…
A caleira e passeio pode ter uma explicação dupla: o provisório continua muito definitivo, mas também é de considerar que se esteja a dar alguma segurança e conforto a quem se desloca por ali a pé (e há quem o faça).