A Alta de Lisboa está a fervilhar. Quem ouve?

No Sábado passado, o Parque Oeste esteve ao rubro. Dois meses e uma semana depois da discreta inauguração oficial da sua 3ª fase, o Parque engalanou-se finalmente para receber os seus visitantes a preceito.
Que festa foi esta, afinal?

Os Desejos ao Alto deram o mote do dia. Um levantamento exaustivo das necessidades dos moradores da Alta de Lisboa e de quem ali trabalha, daquilo de que sentem falta, do que gostariam de ter no Bairro. Acessibilidades, equipamentos, comércio, serviços… Um sonho prometido que tem demorado a acontecer. E como nestas coisas o que é verdade hoje pode não ser amanhã, o Grupo Comunitário da Alta de Lisboa resolveu promover uma actualização de informação, um grande estudo de vontades, para ajudar quem decide a não se perder no marasmo que tem pela frente e a estabelecer prioridades. A consulta pública foi aturada. As várias instituições auscultaram os seus utentes, colocaram inquéritos nas caixas do correio de todos os moradores, no comércio local, na blogosfera… novos e menos novos, todos disseram de sua justiça. Todos quiseram mostrar que sabem o que querem, do que precisam, que não estão adormecidos e que gostariam de ser atendidos. Tudo foi coligido, sistematizado e enviado a quem poderia dar ouvidos às suas preces, juntamente com um apelo para partilhar e apoiar essas esperanças e um convite para, juntos, encontrar soluções para as concretizar.

Os 1000 balões lançados ao alto no Sábado passado são 1000 desafios para a Alta. São 1000 vozes esclarecidas de quem sabe apontar, melhor do que ninguém, as pequenas coisas que poderão fazer grandes mudanças no Bairro onde vive.

E como a “mudança” é a palavra de ordem, algumas mudanças estão nas nossas mãos e o projecto “O meu Bairro é a minha Cara” nasceu assim. Um bairro feito por quem o habita, um bairro onde todos se revejam, que sintam como seu. Requalificar, reabilitar, manter, cuidar. Remover grafites, pintar, rebocar, ajardinar… Mudar posturas e mentalidades, educar, preservar, estimar… Os trabalhos pareciam hercúleos e a ambição inexcedível… Mas a determinação venceu as reticências e o que se seguiu mostrou a todos que a vontade, quando convicta e teimosa, supera qualquer desânimo.

O Grupo Comunitário da Alta de Lisboa organizou-se, fez o levantamento das zonas prioritárias de intervenção, priorizou três, agendou datas, procurou apoios, divulgou, juntou as tropas e avançou. Foram 10 dias de sol a sol, onde a desconfiança deu lugar ao “acreditar que é possível”, ao entusiasmo colectivo, ao empenho individual e à alegria generalizada. Trabalhou-se muito e bem. Sempre com muito boa onda e a adesão foi surpreendente. Houve quem pintasse, quem apanhasse lixo, quem tratasse as caldeiras das árvores, quem arranjasse canteiros. Houve até quem oferecesse águas e refrigerantes aos “trabalhadores do dia” para matar a sede a quem, apesar do sol e do cansaço, nunca desistiu. Foi uma vizinhança no seu melhor, à antiga, daquela de que todos temos saudades e que, afinal, não está perdida.

O Bairro está mais bonito e orgulhoso de si. E foi esse orgulho que se sentiu no Sábado. Moradores e instituições, lado a lado, com forças redobradas. Todos, estiveram presentes a fazer aquilo que melhor sabem fazer: acolher, interagir, mobilizar. E mostraram que, mesmo quando a tarefa é árdua, há causas comuns, há entusiasmos contagiantes e que a Alta de Lisboa vale a pena.

Esteve presente a Vereadora da Habitação, a Arqª Helena Roseta; o Director Municipal da Acção Social, o Dr. João Meneses; a Presidente da Junta da Charneca, Dra. Graça Ferreira; os vogais da Educação e do Desporto da Junta de Freguesia do Lumiar, Dra. Isabel Pereira e Artur Botão; a Administradora da Gebalis, Dra. Helena Correia; a Directora da SCML, Dra. Natália Lopes; o Presidente do ISU, Dr. António Sarmento; a Directora do Programa K’Cidade, Dra. Sandra Almeida e a responsável dos CTT, Dra. Fátima Nogueira. Todos manifestaram a vontade e o apoio à construção e consolidação da Alta de Lisboa.

O evento do Sábado passado foi um protesto e, simultaneamente, um estender de mão. Um protesto pacífico, é certo, mas um protesto importante. Uma reclamação da população e das instituições da Alta de Lisboa do muito que está por fazer. Foi também uma celebração do contributo que a Comunidade pode dar com as próprias mãos, uma celebração da determinação que pode ter e dos compromissos que está disposta a assumir. Todos, moradores e entidades, esforçaram-se muito para que as coisas acontecessem no terreno, na realidade. Essa determinação colectiva, tão difícil de conseguir, é o primeiro passo para a mudança. Falta o resto.

Quem nos ouve?

Comments

25 Responses to “A Alta de Lisboa está a fervilhar. Quem ouve?”
  1. Graça says:

    Que iniciativa fantástica! Isto sim foi uma festa digna de se ver, digna dos grupos de vizinhos e amigos da Alta que tão bem se têm sabido organizar, dando lições de cidadania e participação a quem quiser aprender.
    Parabéns ao GCAL e parabéns ao Viver que faz hoje anos!!

  2. Paulo says:

    Simplesmente espectacular!!!
    Agora é continuar a estender a iniciativa a outras zonas e outros Bairros da área.
    Parabéns!!!

  3. Anonymous says:

    De microfone na Mao esta a presidente da junta da charneca. esta senhora nos ultimos anos fez apenas uma loja na rua Tito morais de apoio aos cidadaos realojados.
    E o resto?
    Nos que vivemos e/ou trabalhamos por ca nao queremos sorrisos nem palavers mansas. Queremos mais e para isso nao nos importamos de ajudar. Mas e preciso dar o mote. Vamos la.
    Vamos agora construir uns pillares em falta, mais eixo central, mais centro de saude …
    O resto nos tratamos.

  4. Cheguei tarde says:

    Depois de os baloes terem subido e as rosetas partido.
    Festival hip-hop. Rimas fixes:…matei, robe, pilhei….fui buscar a Beretta e matei o careta…
    Eram bons os rappers.
    O cheiro deu para eu ficar contente. A minha miuda perguntou-me: aquele senhor trabalhar no art attack ? Quando reparei, o senhor tinha feito a sopa e estava a meter o filtro e a enrolar.
    A 5 metros meti converse com um dos PSPs: bla, bla…tudo malta fixe…so estao a consumir…
    continuei parque abaixo, pela avenida dos agarrados e fomos para o parque infantil do parque das conchas, onde os utilizadores de bugaboo e peg-perego, estando perto, estao tao longe.

    • Carlos Ribeiro says:

      ahahahahahahahahahahah… boa malha ó Cheguei Tarde!

      • Ana Barata says:

        Foi uma pena ter chegado no fim de festa… Perdeu as pinturas faciais, a modelagem de balões, os jogos tradicionais, a actuação do coro infantil Vocalizze, a mostra de artesanato, a loja comunitária, a demonstração de rugby, as aulas de ginástica… enfim, programas mais familiares que animaram o dia.

        Quanto ao cenário que descreve, não sei se ele é muito diferente do que se pode ver num dia de Rock in Rio, num dia de Super Bock Super Rock, numa noite de arraial popular de um qualquer bairro de Lisboa ou numa saída à noite aos locais de animação nocturna da cidade… contingências dos tempos modernos :-) Tudo tão ordeiro e "natural" como em qualquer outro lugar.

        Felizmente, não foi isto que marcou o dia. Não foi esta a tónica do ambiente que se viveu no Sábado e não foi esta parte que fez o todo. Foi uma pena ter chegado tarde.

        • cheguei tarde says:

          Ei, eu adorei a festa.
          Mas a Arq. Roseta estava um bocado pálida. Será que fez uma pintura facial ou a ganza caiu-lhe mal?

          • Carlos Ribeiro says:

            ahahah… o que faz falta é animar a malta! Chamem os Homens da Luta!!!

          • PedroCG says:

            Uau (ou será wow?) Cheguei Tarde, é preciso adoptar um pseudónimo para ter coragem para escrever essas piadolas?

  5. maria says:

    ahahahahah….realmente,tao perto e no entretanto tao longe,mas isto vai com o tempo se deus quiser,campo de ourique era um bairro com muita ma fama á 40 anos e agora é in la morar,pode ser que com a ajuda de nos todos daqui a 40 anos o noso bairro tb seja in,eu ate gosto de morar aqui,

  6. Carlos Ribeiro says:

    pelo que vejo há um senhor de casaco (opus dei) que ao dar a cara e o corpo ao manifesto tb tem esperança…

  7. Paulo says:

    Enquanto pensarem que são superiores aos outros por terem o privilégio de escolherem onde vivem e colocam os filhos nas melhores escolas, nunca iram perceber a outra parte da vida, onde existe agregados familiares a sobreviverem com o ordenado mínimo nacional.
    Sair e entrar em casa pela garagem, não conhecer o vizinho da frente, não frequentar o café ou a mercearia do “Bairro” não tem nada a ver com o extracto social de cada um, mas sim o pequeno passo para conhecer novas pessoas e realidades, bem diferentes das nossas.

    • ERNESTO says:

      Escolher onde viver é relativo uma vez que muita gente vive aqui porque os preços das casas o permitiram, e ao sair ~de carro pela garagem vou para maisum dia de trabalho, para poder pagar a pretsção da casa, e a escola dos miudos, porque a vida custa a todos, e os que saiem pela garagem trabalham, enquanto muitos dos outros andam encostados às esquinas, e a fumar e a beber nos cafés da zona, à custa do trabalho e dos descontos dos outros "aqueles que utilizam a garagem".

  8. Paulo says:

    O argumento é sempre o mesmo, para quem não tem mais nada para dizer…
    As pessoas referenciadas são uma minoria, comparadas com as muitas que felizmente cumprem com as suas obrigações, apesar de não terem tido as mesmas oportunidades e com muito menos recursos.
    Então vejamos, as pessoas que fazem parte das muitas e meritórias instituições que foram aparecendo na Alta de Lisboa, e que muitas delas não têm fins lucrativos, são masoquistas, por trabalharem em prol da comunidade onde residem, sem nada em troca, e de certeza que também trabalham e pagam os seus impostos.
    A pequena mas que se torna numa grande diferença, é que não utilizam a porta da garagem para se esconder e ignorar os problemas, preferem integrar-se no meio onde escolheram para viver e tentar melhorá-lo de alguma forma.
    Há muita vida para lá da rotina diária de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

    • pmd says:

      Já sei quem estragou o portão da garagem.
      Cada um tem direito aos seus ódios de estimação, mas estragar o bem comum é demais…

      Pela minha parte não enfio a carapuça da falta de generosidade social. Vou ao café quando posso, digo bom-dia e boa-tarde e até ja paguei rodadas de minis. No entanto, nunca me deram um bafo sequer, quanto mais umas 5 gramitas…

      A menos que deva considerar um exemplo de generosidade social aquelas pedradas que me mandaram ao vidro da sala no outro dia….

    • ERNESTO says:

      Bem se diz que são uma minoria não deve conhecer o Bairro onde vive, ou então sai muito pouco de casa, e vai poucas vezes à janela…….
      Os "desocupados" do Alto do Lumiar, são uma maioria em relação aos que produzem algo para a Sociedade. Concordo que dos habitantes realojados, alguns trabalham, mas não muitos, a grande maioria vive do rendimento minimo ou como lhe quiserem chamar, não procurando trabalho, pois viver de esquemas é muito mais fácil.
      Os outros que trabalhem, e o Pais está no estado que está, com uma classe politica corrupta e incompetente, e esta gentinha a viver melhor que alguns que trabalham, e no final do mês trazem o salário minimo para casa, enquanto esta impunidade continuar, esta cidade e este País não vai a lado nenhum.

  9. Ana Barata says:

    Curiosamente, este também foi um dos Desejos lançados ao Alto no dia 29. E curiosamente, também este é um dos Desejos cuja satisfação está na mão de todos nós. Não depende de mais ninguém.

  10. hrelogio says:

    No que for possivel (e por vezes impossivel) o Condominio Jardins S Bartolomeu ira continuar a apoiar e ser parte activa destas e outras iniciativas.

    Fica o desafio para os condominios que ainda não o estejam a fazer.

  11. Eduardo Costa Dias says:

    Já agora… e se o pessoal da Alta de Lisboa se mobilizasse na defesa de um núcleo antigo de casas (algumas em bom estado) que a meio do bairro se esconde entre matagal e muito entulho?

    • Tiago says:

      Está a falar desta quinta (http://www.viverlisboa.org/?p=7321)? E juntar para defender o quê? Para fazer o quê? Com que projecto? Para utilização de quem?

    • Carlos Ribeiro says:

      Cá pra mim era deitar isso tudo ao lixo… do Tipo Vai tudo abaixo!!! Aquilo deve ser património ´de interesse público com proprietário privado… BAH!

  12. Eduardo Costa Dias says:

    Exacto. Quanto às perguntas que me faz, não tenho resposta. Muito embora tenha conhecido relativamente bem esta zona no tempo em que ela se chamava Musgueira, não vivo na Alta de Lisboa e não tenho nenhuma das valências profissionais habitualmente consideradas adequadas para "projectar" nesta área; não sou nem arquitecto ou urbanista, nem promotor imobiliário ou pato bravo. Contudo, tenho algumas ideias sobre o que deve e não deve ser conservado nas cidades como memória da própria cidade. Sendo pouco é, no contexto deste assunto preciso, creio que suficiente para mandar uns bitates sem envergonhar, como se costuma dizer, a família, os amigos e os colegas!

    • Tiago says:

      :) Não envergonha ninguém à sua volta, Eduardo. Só perguntei para saber se valia a pena um grupo de cidadãos reunir-se, empenhar-se na defesa de um núcleo antigo de casas – sem saber muito bem se era a manutenção da sua existência per si ou se para uma reconversão de usos para dotar o bairro de um equipamento cultural ou uma quinta pedagógica, por exemplo – e depois, no fim de petições, cartas enviadas para a CML e press-releases para a imprensa, virem os donos da Quinta dizer "Ó meus senhores, agradecemos o carinho que têm pela nossa casa, mas não está à venda. Obrigado."

      • Carlos Ribeiro says:

        Esses senhores deviam era de ter vergonha em ter aquilo no estado em que está… mas pelo menos andam bem montados em BM´s e Mercedes… e já lá vi um Porsche a entrar mas reparei que era engano…

  13. pmd says:

    Fica em frente a nossa escola. Tenho muita pena de a ver envelhecer sem dignidade. Provavelmente os herdeiros nao se entendem quanto a sua manutencao. Assim, morre a quinta que em tempos
    dava emprego a muita gente e que mais recentemente emprestou o seu nome e as suas terras ao bairro que ali existiu, a do norte e acdo sul.
    Pena!
    Um pais de ricos pobres e pobres ricos tambem da nisto!

Speak Your Mind

Tell us what you're thinking...
and oh, if you want a pic to show with your comment, go get a gravatar!