Ode aos comerciantes

Entre figuras destacadas da sociedade portuguesa, corre de tudo um pouco no meu sangue.

Há elementos da minha família mais próxima agraciados com a Ordem do Infante D. Henrique, e já houve bastonários de ordens profissionais; há ilustres professores catedráticos, pintores, jornalistas, fadistas e afins (estou eu própria a incluir-me nessa categoria dos “afins”), e há não sei quantas gerações houve até um ministro das Finanças, que descobri recentemente no inventário genealógico do site dos mórmones.

Politicamente, há comunistas, anarquistas e reaccionários (a sua grande maioria) e de entre os mais destacados há também um mal-amado líder de um dos maiores partidos portugueses e ex-presidente da Câmara de Lisboa.

Geograficamente, há beirões, alentejanos, algarvios e freixo-de-espada-cintenses, uma mistura explosiva que talvez possa explicar o estranho e muito comentado fenómeno de eu ter o condão de parir filhos loiros de olhos azuis, apesar de ser tão morena, tão morena que bastava pôr um sari ou uma pintinha na testa para passar perfeitamente despercebida no eixo do Martim Moniz à Rua da Palma.

Mas nos dois braços da minha família houve dois grandes homens, dois homens de uma tremenda integridade e generosidade que, sem batinas, sem berços de ouro, sem canudos, fizeram uma enorme fortuna fora das fronteiras deste rectangulozinho e da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa, sem terem tido (injustamente, muito injustamente) faixas ou condecorações do Estado.

E esses dois homens eram comerciantes. Isso mesmo, meros comerciantes. É a eles que se deve o facto de, por vezes, brincarem comigo aventando a possibilidade de a minha família ser detentora de poços de petróleo na Arménia. E é também por causa deles que eu e os meus filhos não teremos à partida que nos preocupar com a falência da segurança social e com o súbito encolhimento das prestações de reforma num futuro que não será assim tão longínquo, pelo andar que a carruagem [de alta velocidade] está a tomar.

É precisamente devido ao árduo trabalho, atrás do balcão, do meu avô Oliveira e do meu bisavô Xavier, ambos nascidos no início do século XX, ambos homens muito pequeninos pela fome que passaram na sua primeira-infância, que somos o que somos, que temos o que temos, e que vivemos esmagados pelo ónus de lhes chegarmos aos calcanhares.

O meu avô Oliveira fixou-se no Congo Belga (actual República Democrática do Congo), na cidade portuária de Matadi, com o nome de “Manga-Manga” – baptismo que lhe deram os nativos pela sua pitoresca opção de plantar duas mangueiras junto aos seus estabelecimentos comerciais.

Filho de pai nada incógnito mas sim muito canalha, órfão de mãe perdida para o surto pneumático do início do século XX, o meu avô Oliveira empenhou o pouco que tinha, uma casa de xisto numa aldeia perto de São Pedro de Sul –, e chegou ao maior porto de África. Matadi deveria ter sido apenas uma parte da longa aventura à qual se lançou, porque o seu sonho era o americano, o de todas as oportunidades.

Mas Manoel d’Oliveira, o meu avô e não o realizador de cinema, deixou-se ficar, respondendo durante várias décadas pela alcunha de “n’Tima Manga” – o coração da Manga, em Quicongo –, pela sua incomensurável generosidade, pelo tamanho enorme do seu coração.

Do meu bisavô Xavier sei muito pouco, não cheguei a conhecê-lo, com grande pena minha. Durante a minha infância apenas me contaram dos seus olhos muito azuis, da sua baixa estatura, e da sua excentricidade a roçar o lunático quando oferecia dinheiro a eito na rua, ou quando levava vagabundos para casa (mal de que padeço parcialmente).

Mas no início deste ano, num doloroso velório (um excelente local para ouvir histórias da família que não cheguei a conhecer), no qual me apercebi que os olhos azuis da minha filha poderão muito bem vir do seu trisavô, soube que António Xavier, o meu bisavô, partiu de barco para o Brasil, cumprindo o sonho não concretizado do seu pai. O seu pai que, no final do século XIX, saiu de Freixo de Espada à Cinta, levando consigo a sua mulher e filhos pequenos com o sonho de partir para o outro lado do Oceano, sonho que não se concretizou devido a um calote enorme que sofreram no Barreiro, cidade na qual então se fixaram, resignados, trabalhando a sua vida inteira na dura seca do bacalhau.

Neste momento, poderia contar-vos os inacreditáveis eventos e aventuras dos meus antepassados e de como os seus destinos se cruzaram mais do que uma mão-cheia de vezes cerca de meio século antes de as duas famílias se unirem de facto. Poderia também dizer-vos que no tal velório dolorosíssimo me foi contada a forma como o meu bisavô comprou – sem dinheiro algum – a quinta senhorial na qual a sua mãe trabalhou como uma simples criada a sua vida inteira e lha ofereceu, dizendo apenas: “Eu sempre lhe prometi que um dia esta casa seria sua.” Mas isso fica para depois.

Esta crónica é sobre comércio. Sobre comerciantes.

O meu pai ficava danado (ele diria “piurso”) quando se tornava habitué de um sítio. Dizia ele que odiava o facto de, antes de o seu rabo se ter moldado à cadeira do café, já estar à sua frente um café duplo e uma torrada. “E se um dia me apetece uma meia-de-leite?” Mas a verdade é que nunca o vi a tomar outra coisa senão um café duplo e uma torrada.

Apesar de ter sido um pai fora dos moldes comuns, o meu pai, que foi o melhor pai que conseguia ser, passou-nos também ensinamentos muito preciosos relativamente à restauração – nunca comer salada na Feira Popular e em tascas duvidosas e dar sempre generosas gorjetas são aqueles que mais amiúde pratico.

Mas esta sua filha não sai ao pai neste pequeno aspecto, e vai sempre aos mesmos sítios, retirando o maior prazer das pequenas rotinas, porque é delas que nascem os eventos mais improváveis e extraordinários. Mesmo que não me apeteçam dois cafés cheios pela manhã, bebo-os sem ser a contragosto quando a Luísa, a empregada de mesa que parece a Kate do Lost, os põe em cima da mesa – porque é assim todos os dias, por que raio não os haveria de beber só por capricho?

Encontrar um café decente e mais ou menos bem frequentado no Intendente é uma tarefa árdua. Preconceitos à parte e por mais que sejamos a favor da integração de credos e classes sociais, é barra muito pesada encontrar um sítio onde se possa ir com crianças sem levar com bêbedos, toxicodependentes, prostitutas ou simplesmente gente feia, mesmo muito feia. Apelidamos, aliás, o café Capri – “o melhor para si”, é o slogan da baiuca à porta da boca do metro do Intendente –, que tem o melhor pão e pastelaria fina da avenida, como o bar do Star Wars, porque parece que é ali que se juntam todas as pessoas estranhas de Lisboa: pessoas com cabeças muito grandes, ou com cabeças muito pequeninas; pessoas sem queixos, ou com bócio; pessoas com narizes gigantes ou mesmo sem qualquer cartilagem; até um Pai Natal ruivo bêbedo, careca e com brincos de marinheiro, lá encontrámos um dia…

E dividimos permilagem do nosso prédio, também, com a Pastelaria Paris, centenária casa de chá, mas com a qual nos zangámos irremediavelmente depois de terem deitado fora os painéis de azulejos kitsch de Paris nos anos 80 e de terem passado a fazer pregos com pão comprado no supermercado, pondo as culpas na ASAE.

E depois encontrámos um oásis. E desde há uns dois anos que as nossas manhãs e fins de tarde passam-se todos os dias na Pastelaria Delta – Almirante 25.

De manhã, há a D. Emília que me cede o seu Correio da Manhã e que conta as tropelias dos seus netinhos e dos anos que levou na profissão de enfermeira no São José e nos Capuchos. Há também um muito peculiar vizinho meu, que aluga um quarto às senhoras que vendem perucas no primeiro andar, que corre os classificados do Correio da Manhã, passando para um bloco “caravela”, numa caligrafia muito bonita, os anúncios que lhe interessam. E há muita coisa que o interessa, penso que aquele passatempo é o Sudoku deste meu vizinho: passa os anúncios e sublinha os telefones com caneta encarnada só para ajudar o tempo a passar. À tarde, há também o Sr. António, um porteiro muito velhinho, a quem o António faz tem-tens.

E, claro, o Luís, o dono do café, a Luísa e a D. Rosa, empregada de mesa e cozinheira, respectivamente – peças fundamentais desta história. Eles são praticamente da minha família, sabem as minhas manhas e as dos meus filhos, é certo que às vezes não me apetecem dois cafés mas é um preço justo a pagar pelo amor que nos têm: embarcam em todas as loucuras da minha filha Carolina, que, por exemplo, o ano passado quis um bolo de aniversário de bola-de-berlim gigante, e não se importam quando o António invade a área de serviço e desliga os expositores frigoríficos.

Esta semana, sofremos todos um duro golpe. O Luís passou a Delta no passado domingo, suponho que por motivos económicos, e desde segunda-feira que nada é como dantes. Os cafés são cheios e não cariocas, como no-los trazem para a mesa, e a Carolina já não pode ir buscar os papéis das ementas do almoço para fazer desenhos atrás do balcão, ao final da tarde, nem o António tem sempre à sua espera um iogurte da Danone muito menos desligar os frigoríficos. Já não posso ficar a dever o almoço, cujas doses foram cortadas para metade – e, francamente, a minha avenida está muito mais pobre.

Como se não bastasse, fechou também as portas esta semana o nanomicrominimercado do meu vizinho bangladechiano, que se fartou de pagar uma fortuna de renda e de ter a casa a cair, pelo facto de o senhorio se recusar a fazer obras no seu pequeno estabelecimento onde há muitos anos, na esquina da Almirante Reis ao Regueirão dos Anjos, se vendiam fósforos e papéis de fumar. Agora não temos cigarros até à meia-noite, nem mercearia a desoras. Não temos a rotina de ir buscar os miúdos ao colégio, do outro lado da rua, e ficarmos ali uns cinco minutos, recusando de forma cortês os chupa-chupas que ele oferecia diariamente às crianças.

Mas esta é uma crónica sobre comércio. Sobre como o comércio, sobre como os comerciantes, dois comerciantes em particular, como o meu avô Oliveira e o meu bisavô Xavier, podem ajudar a regenerar uma avenida amaldiçoada e fazer-nos sentir num outro lugar parecido com a nossa casa.

* Fotografia com Direitos Reservados

Comments

4 Responses to “Ode aos comerciantes”
  1. Filipe says:

    :)

  2. Lídia Amaral says:

    Bonita crónica.
    Venham mais s.f.f.

    • PLages says:

      Concordo, agradecemos mais umas!

  3. meio copo says:

    Esta crónica não é sobre comerciantes, é sobre si. E meio cagona, devo dizer.

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