É terça-feira e a feira da ladra abre hoje às cinco da madrugada

Poderíamos falar de uma utilização temporária do espaço público quando falamos da Feira da Ladra. Nesta feira, que remonta ao Século XIII, vendem-se ‘trapos e cacos’, troca-se ‘a tristeza pela alegria’ e regateiam-se ‘amarguras e ilusões’, evidenciando-se diferentes formas de apropriação do espaço que aparecem em oposição à tão favorita homogeneização da cidade. Neste tipo de ocupação identificam-se necessidades e carências e também cenários de criatividade e de imaginação que se caracterizam pela coexistência de diversas dinâmicas, processos e estratégias (de sobrevivência).

Pode saltar-nos à vista, numa primeira fase, o tipo de materiais utilizados: materiais “sustentáveis” – cartões, desenhos, sobras, plásticos, objectos abandonados – que foram recuperados para um novo uso. São materiais que reflectem os comportamentos, as necessidades, a linguagem e as ideias dos indivíduos que os utilizam. Numa segunda fase, podemos observar novas formas de uso temporário do espaço, que permite reflectir sobre a forma como os espaços públicos, planeados por arquitectos e urbanistas, se convertem em espaços com outras funções (um espaço vazio de um largo, neste caso o Campo de Santa Clara, pode transformar-se num mercado, por exemplo). E numa terceira fase, coloca-se em evidência as relações sociais em público, através de diferentes formas de permanência ou de comércio que se manifestam na materialidade do espaço e na invenção de uma linguagem própria de cada comunidade.

Cada uma destas utilizações temporárias desenvolve os seus códigos, muitas vezes difíceis de descodificar. Novas formas de sociabilidade são também experimentadas num laboratório débil e difuso. Numa apologia à reconquista do espaço público, cada um destes pequenos espaços temporariamente ocupados aparecem como se de pedaços de uma “cidade” se tratassem (conjunto de pequenos fragmentos que formam um todo). Reler estes espaços através da criatividade e da imaginação utilizada é colocar no visível o que muitas vezes a cidade onde vivemos não permite.

Partes da letra de ‘É terça-feira’ do album ‘Canto da Boca’ de Sérgio Godinho (1981).

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