Nas minhas mãos

A Dona Cândida tem 86 anos e é viúva.

Vive num prédio antigo, de um bairro que não é novo, numa cidade que já não é nem menina nem moça. Antes de dormir, come duas bolachas de água sal empapadas num chá verde morno.

Como tem poucas posses e ainda menos amigos, não instalou telefone. A Dona Cândida tem medo das pessoas que o bairro não lhe apresentou e por isso tende a ignorar quando lhe tocam à campainha. Repete muitas vezes cansada que agora a vida é uma imitação repetida do dia anterior com um pouco mais de dor.
O aparelho que agarra entre as mãos é tudo o que tem para chamar ajuda se dela precisar.

Os números não desmentem as ânsias da Dona Cândida, que não temendo a morte, afugenta a dor. 30% das pessoas com 65 ou mais anos sofrem quedas em casa. Um valor que sobe para 50% nas pessoas com mais de 80 anos, aumentando, também, a gravidade das consequências destes acidentes.

Para dar resposta a esta problemática e para ajudar os idosos em situações de emergência dentro das suas casas (quedas, mal-estar, dor, entre outras), foi criado um dispositivo inovador: Um sistema de alarme por teleassistência direccionado para os idosos que se encontram entregues à si mesmos.

O alarme é accionado através de um botão de pânico, que pode ser utilizado no pescoço ou no pulso e faz uma ligação ao centro de atendimento telefónico através de uma unidade central montada em casa do idoso. E como funciona por GSM não necessita de rede ou de uma linha telefónica.

A Dona Cândida tinha 33 anos quando viu televisão pela primeira vez, mas é a tecnologia que lhe dorme à cabeceira e não a presença de um familiar amigo. Graças a este simples dispositivo a Dona Cândida adormece todas as noites, sem medo que a alma se atrapalhe a abandonar a “residência”.

Segundo os dados censitários, um em cada quatro cidadãos residentes em Lisboa é idoso. No conjunto de idosos com mais de 75 anos, um em cada quatro vive sozinho. A tecnologia não substitui o homem na sua capacidade de construir relações mas pode ser uma via facilitadora para nos aproximar. E pode ser que assim, daqui a uns anos largos, à volta do meu pulso esteja apenas a tua mão…

Comments

One Response to “Nas minhas mãos”
  1. Um tema desconfortável, ao qual tentamos escapar. Desejamos que não nos aconteça, se lá chegarmos.
    Uma via possível é a construção de relações pessoais e a tecnologia pode, sim, ajudar-nos nessa aproximação.

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