Viver na Baixa — amaldiçoada — de Lisboa

Almirante Reis, 16, na década de 60, com as obras do metro a decorrer. Fonte: Arquivo Fotográfico.

A primeira nota de liquidação do Imposto Municipal sobre Imóveis que chegou à nossa caixa de correio centenária, na porta 19 da Almirante Reis, confirmou aquilo que já desconfiávamos quando, deixando toda a família de queixo caído, decidimos morar na Baixa amaldiçoada de Lisboa: viver no Intendente é qualquer coisa de extraordinário!

“Quociente de localização extraordinária”.

Lemos e relemos a avaliação efectuada pela administração tributária, primeiro rimos à gargalhada solta, entre o espanto e a incredulidade, depois ficámos num silêncio de difícil digestão e, por último, como cumpridores cidadãos que somos, lá pagámos o imposto, ainda que contrafeitos.

Moramos a escassas centenas do monumental Rossio, e da Baixa Pombalina, é um facto, mas numa avenida que, se primeiro tinha nome de rainha, foi depois foi rebaptizada em homenagem do almirante republicano suicida e, talvez, tenha sido por aí que a maldição se instalou.

Do alto de um quinto andar sem elevador – cento e dez degraus que escalamos com dois filhos pequenos todos os dias, várias vezes ao dia – podemos afirmar, com doses cavalares de ironia, que pagamos mais IMI do que a Lisboa dos condomínios privados, porque vivemos numa avenida extraordinária.

É um facto inegável. Dois anos depois de nos termos lançado nesta aventura, sabemo-lo, e fazemos tudo o que está ao nosso alcance para provar que vivemos na avenida mais cosmopolita e bonita da capital.

E já não somos assim tão poucos — aqueles que, deliberadamente, tendo todas as cartas na mão, cidadãos informados, com formação superior, decidiram morar às portas do mal-afamado Intendente, na não menos mal-afamada avenida Almirante Reis. Jornalistas, líderes de opinião, arquitectos, professores, todos nos encontramos logo pela manhã, no número 25, agora Pastelaria Delta, há 60 anos atrás, dependência do Banco Nacional Ultramarino.

Rua dos Anjos, esquina com a Almirante Reis, década de 60. Fonte: Arquivo Municipal

Mas temos pouco de marketeer, porém. Não defendemos rebrandings da avenida, nem sequer a ideia disparatada de mudar o nome ao Intendente, que já foi avançada em folhas de vários jornais. “What’s in a name”, já perguntava Shakespeare, no seu Romeu e Julieta, e cá por casa acreditamos que as coisas devem ser chamadas pelos nomes que têm. Sem vergonhas. Moramos no Intendente. Vivemos bem com isso. Sabemos que dificilmente a Catarina Portas abriria uma “Casa Portuguesa” na Almirante Reis, muito menos um dos seus quiosques de refrescos no Jardim da Igreja dos Anjos, frente à Sopa dos Pobres. A requalificação da Almirante Reis e do Intendente passará mais pelo rasgo de alguns destemidos do que uma cerimónia de baptismo.

Somos loucos, ou lisboetas cheios de esperança? Cidadãos destemidos, sem receio de viver paredes-meias com outros cidadãos de outros credos, de outras raças, de outros estratos sociais?

Temos muito em comum — nós que, em pontas opostas da cidade, decidimos viver na Alta e nesta Baixa de Lisboa. Temos problemas todos os dias à porta, tal como vós, apesar de também sentirmos que podíamos viver num oásis, num novo paradigma de cidade.

Na Baixa extraordinária onde vivemos há um colorido que não encontramos noutra parte da nossa cidade, há laços de amizade, vizinhança e solidariedade que não esperávamos encontrar na Almirante Reis ao Intendente. A cada dia que passa, estamos certos que tomámos a decisão certa de nos mudarmos para o primeiro quarteirão da avenida mais desprezada de Lisboa.

Av. Almirante Reis, esquina com a Rua dos Anjos, década de 20. Fonte: Arquivo Municipal.

Muito falta fazer na nossa Baixa de Lisboa, e para tal não há boa vontade que faça mover as montanhas que precisamos de deslocar, para que, quase um século depois, se possam voltar a comercializar postais ilustrados da avenida do azar, que rasga toda a cidade, ligando a parte velha de Lisboa à cidade desenhada a regra e esquadro do século XX.

À nossa porta, infelizmente, encontramos, todos os dias, situações esmagadoras e no limite da dignidade humana: fome, criminalidade, prostituição, toxicodependência. Não há postais ilustrados que nos valham quando todos os dias a nossa avenida sangra.

Subir a Almirante Reis, do número 1 ao 260 é uma experiência de vida, por si, e um estudo sociológico à espera de ser conduzido. Os edifícios Arte Nova (a avenida começa com o Prémio Valmor de 1908 — o primeiro Valmor atribuído a um prédio de rendimento, com estabelecimentos comerciais), a azulejaria, os vários Imóveis de Interesse Público, os mamarrachos da década de 60 e 70, o Banco de Portugal, a Praça do Chile, o Império e a Alameda, até ao 260, junto à Praça do Areeiro, há um mundo de contrastes.

À porta do número 19, onde assentámos arraiais, temos o mundo todo à espreita. Em menos de dez passos, vamos à China, a Goa e ao Paquistão. Temos o Togo, o Senegal, o Zaire à distância de um minuto. Se andarmos mais um pouco, carimbamos o passaporte com a tinta de várias ex’s repúblicas da URSS. Há também o samba do Brasil não muito mais longe.

Se nos faltam cigarros à meia-noite há sempre uma mercearia de portas abertas que nos sossegue o vício. Se precisamos de um ingrediente gourmet para um qualquer prato exótico oriundo dos quatro cantos do mundo, não precisamos de rumar ao Corte Inglés – temos abertas, em horário alargado, sete dias por semana, 12 a 14 horas por dia, várias lojas gourmet, onde se calhar ninguém fala português, mas onde tudo, mesmo tudo se encontra.

Há gente que reza a Alá, que todos os dias se descalça na mesquita, outros servem o Aga Khan, há católicos, baptistas, evangelistas ao longo da nossa avenida.

Temos sapateiros e arranjos de costura em vãos de escada sombrios, mas habitados por gente honesta e trabalhadora. Temos o melhor pão e o melhor frango assado de Lisboa à esquina, apesar do aspecto da fauna que o frequenta.

O metro e o eléctrico à porta. Não precisamos do Ikea, porque estamos na avenida do mobiliário por excelência – uma verdadeira extensão de Paços de Ferreira. As quinquilharias vendidas aos milhares, no gigante sueco, lá para os lados de Alfragide, encontramo-las ao mesmo preço e sem enfrentar multidões nas dezenas de armazéns que povoam a nossa avenida.

Um dia, cremo-lo com todas as nossas forças, vai ser um privilégio morar na Almirante Reis e no Intendente também. Nós e uma pequena minoria de lisboetas já o sabemos, e neste espaço gentilmente cedido pelo “Viver na Alta de Lisboa”, vamos, mês após mês, dar o nosso contributo para limpar a imagem da mais mal-amada avenida de Lisboa.

Av. Almirante Reis, da janela do nº 19, onde vivemos, há 72 anos atrás. Fonte: Arquivo Municipal.

Comments

8 Responses to “Viver na Baixa — amaldiçoada — de Lisboa”
  1. Tiago says:

    Sê bem-vinda, Diana!

    Obrigado pela partilha.

  2. Pedro says:

    Óptima estreia, Diana. Bem vinda!

  3. Diana, como morador (um pouco mais acima), Obrigado, esta muito bom, vamos dignificar a nossa Avenida.
    Familia: Luis, Ana, Matilde e Carlota

  4. a. galvao says:

    Ai está ela a Diana :)

  5. CarlosMC says:

    Gostei bastante do seu post Diana.
    É uma descrição estimulante de viver num sitio contra a corrente. Num sitio da nossa cidade para onde não vão, nos últimos anos, jovens casais. Um sitio que não está na moda.
    A sua vivência num local tão rico sociologicamente, com tanta diversidade, com tantas misturas de culturas, deve ser uma experiência estimulante. É um desafio ganho todos os dias.
    E o paralelismo com a Alta é, nalguns pontos, inevitável.
    Permita-me um toque mais pessoal, deixando-lhe uma sugestão gastronómica do melhor Pato à Pequim de Lisboa, talvez do mundo ocidental… É no Kioto City Restaurants (passo a publicidade), no n.º 208-A da Rua da Palma. Na parte que, pessoalmente, considero mais interessante, do ponto de vista arquitectónico, dessa ligação da Baixa às zonas mais altas da cidade, antes da mais Alta. Experimente. É um sitio único, frequentado sobretudo por chineses. Estimulante.
    Parabéns pelo seu testemunho. Fico ansioso pelo próximo.

  6. Bonito texto!

    Levou-me até uma manhã solarenga de inverno, há alguns anos atrás.

    Trabalhava na altura na Rua Visconde de Santarém e tive de sair para tratar de um assunto no Rossio. O dia estava lindo. Por isso troquei o metro por um passo apressado.

    A diversidade de pessoas com quem me fui cruzando despertou a minha atenção. E o passo apressado foi-se tornando mais lento à medida que ia deixando para trás a Praça do Chile e me aproximava do Martim Moniz, envolvida num turbilhão de cores, de olhares, de cheiros, de emoções.

    Embora já tivesse feito aquela avenida a pé inúmeras vezes, dei-me conta que costumava por ali passar sem sentir nada, naquela alienação onde por vezes nos deixamos chegar.

    Descer aquela avenida, ao fim de uma manhã de sol, num dia de semana, foi uma experiência extraordinária.

  7. Miguel Castro Caldas says:

    Gostei muito. Adoro a av. Almirante de Reis, descê-la a pé, até ao Martim Moniz, o coração de Lisboa, e perder-me na Mouraria, onde se vê crianças a brincar na rua, mas não são portuguesas. Porque os pais das crianças portuguesas acham que é perigoso deixá-las ir brincar para a rua.

  8. José Coelho says:

    Basta um simples cheiro, gesto, sabor ou uma palavra perdida entre muitas, etc. para nos trazer à memória toda uma recordação há muito adormecida no mais profundo da nossa mente. É este o caso do seu belo artigo sobre a Av. Alm. Reis, por isso não resisto a transcrever esse mundo de recordações. Obrigado.
    Á memória de minha mãe e de todas as crianças, hoje homens de 60 ou mais anos, que se revejam aqui, especialmente aqueles que comigo brincaram e viveram estes tempos.

    Éramos meninos, nascidos e criados no velho Bairro da Mouraria, em romaria partíamos Almirante Reis acima (ao princípio era na “sopa” lá mesmo no bairro, um velho edifício de tijolo encarnado na Rua da Guia no alto da caganita) até aos Anjos, alheios ao que representava irmos ali, depois descíamos já com as buchas entre dentes, parando aqui e além no meio da brincadeira, sentavam-nos no chafariz á esquina da Calçada do Desterro, escala obrigatória, para um “descanso” muitos de nós, como é o meu caso, juntamente com os livros, levávamos o cesto com a panela para a escola (andava na escola 1, no Largo do Saco – hoje Largo da Escola Municipal), depois à tarde, pelas ruas do meu bairro, Capelão, Guia, Amendoeira, Terreirinho, Olarias, Marquês Ponte Lima, becos e travessas passávamos a ser cavaleiros, tarzans, cowboys, índios e tantos outros defensores dos mais fracos, que no velho piolho (Salão Lisboa – 2$50 – sessões contínuas – que poesia quando as luzes se apagavam…) interiorizávamos. Eram os berlindes, as caricas, as trapeiras que fazíamos com as meias – Zeca sabes onde está o outro par desta meia – perguntava-me minha mãe aflita referindo-se a umas meias já velhinhas, remendadas e palmilhadas, (quem se lembra o que isso é? eram assim todas as minhas meias, sim porque o par novo era para os dias de festa).
    Meu Deus, que imaginação e poder criativo tínhamos então, partíamos para tardes de brincadeira só com as “mãos”

    A imagem um tanto ou quanto poética que pode transparecer do texto está indubitavelmente ligada à meninice e juventude desses tempos e não só, deriva também do carinho e dedicação que minha mãe me devotou, o que, de certa forma suavizou esses tempos e a sua recordação. É uma verdade, mais ou menos aceite, que o tempo põe poesia nas coisas.
    A leitura fria é que foram tempos muito difíceis, a minha mãe e eu comíamos a sopa do Sidónio e pouco mais e quando ela podia comprava um bifinho de cavalo de 10 ou 15 tostões, só para mim, ela ficava a ver-me comer, alimentando-se só do prazer da minha satisfação. (não me dá para escrever mais, desculpem-me)

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