Carta impossível
3 February, 2010 by Carlos Moura-Carvalho

Exmo. Sr. Eng. Nuno Krus Abecassis,
Peço-lhe desculpa pela ousadia, mas senti vontade de lhe escrever. Talvez seja um pouco a despropósito, mas o impulso foi maior que a sensatez.
Passaram muitos anos desde a única vez em que nos encontrámos, mas como o destino quis que eu pudesse trabalhar num projecto seu – naquela zona imensa ao pé do aeroporto onde se idealizou uma parceria publico/privada para regenerar urbanisticamente aquelas terras e realojar toda aquela gente que vivia nas barracas que tantas vezes o senhor visitou, partilhando as dificuldades – nestes últimos anos temos mantido uma cumplicidade especial, comunicando de quando em vez. Umas vezes para partilhar as más noticias e muitas as boas novas.
Foi assim daquela vez em que se criou um prémio com o seu nome para os alunos que se destacassem nas escolas. Ou daquela vez em que o senhor serviu de inspiração à decisão de construir a Av Santos e Castro com 3 vias em vez de duas. Ou quando se conseguiu ultrapassar mil obstáculos e ao fim de quse 10 anos de estudos, se aprovou aquela grande rotunda junto à 2a Circular. Quando de fizeram escolas. Quando se realojaram tantas famílias em novas e confortáveis casas. Ou, ainda, quando se pensou num grande centro cultural.
Espiritualmente temos partilhado alguns momentos nestes últimos anos.
Mas hoje decidi escrever-lhe porque preciso de incentivo. Preciso de esperança, da sua força e determinação, da sua fé. E esta foi a forma que encontrei…
Não estou sozinho. Somos muitos. E estamos a baixar os braços. Estamos a perder a esperança. Estamos em baixo.
É que isto aqui pela zona, agora conhecida por Alta de Lisboa, está mau, está em baixo. Nós tentamos acreditar, mas casa vez é mais difícil.
A tal avenida junto ao aeroporto, designada por Eng. Santos e Castro está parada há anos, e o grande parque verde e o boulevard principal, projectado por um actual vereador, nunca mais acabam. O Centro Social da Musgueira do Pe. José Manuel da Rocha e Melo s.j. ainda está no mesmo sítio, nunca mais começam as obras do novo. Nem as das piscinas. Nem as dos bombeiros. Nem as da Pedro Queiróz Pereira. Nem nunca mais se falou na igreja da nova paróquia.
E aquilo que o senhor tanto idealizou, a plena integração e convivência entre estratos sociais, também tarda em ser uma realidade. É que, acredite, ainda não há serviços por aqui… Escritórios, grande comércio, organismos do Estado, não existem. Nem um posto de correios ainda há. Esteve para abrir aqui há uns anos, mas depois…
Não quero abusar da sua paciência e por isso não me vou alongar, apesar de haver tantas outras coisas que queria partilhar, boas e más. Mas precisava de desabafar. E pensei fazê-lo consigo. Achei que o senhor me iria compreender. Nos iria compreender. E ajudaria de alguma forma.
Utopia, disparate, insensatez, delírio… Talvez.
Reconheço que esta carta é tudo isso. Afinal, o senhor nunca poderá receber esta carta. É obviamente uma carta impossível.
Mas o seu projecto para aquela zona também assim foi considerado. E hoje, passados 20 anos, está feito em metade, apesar de tudo… E tem já tantas coisas boas, que o fariam sentir orgulhoso.
Peço-lhe para não estranhar se daqui a uns tempos voltar a importuná-lo. É que ajuda partilhar, quando o absurdo impera. Por mais absurdo que também isso possa parecer.
Despeço-me cordialmente e apresento os meus cumprimentos
Com enorme estima e admiração
Carlos Moura-Carvalho





Vivemos permanentemente enganados. A Alta de Lisboa está prestes a tornar-se num grande embuste imobiliário! As irresponsabilidades das várias organizações que têm tentado gerir este território estão à vista de todos. Agora, com o agudizar da crise portuguesa, mais entraves existem ao desenvolvimento deste projecto. Do meu ponto de vista existem aqui dois grandes responsáveis: a SGAL ao ter acreditado que poderia expandir a construção por uma área tão vasta, praticando preços especulativos e não dando uma assistência pós-venda digna de nome. A CML por ter fugido dos seus compromissos uma vez resolvido o problema dos realojamentos.
Os actuais moradores é que pagam as favas: muitos dos prédios de realojamento vão permanecer em ilhas habitacionais por muito anos, sem acessos decentes e sem estruturas de apoio condignas. Quem comprou uma andar para lá viver vai ter que ficar a pagar um IMI alto de acordo com um padrão de desenvolvimento imaginado e não real.
Vários exemplos de grandes urbanizações com carácter muito especulativo, legalidade duvidosa e sucesso muito discutível, foram travadas há uns anos. São disso exemplo, vários casos junto à Matinha e Expo. Havia outras zonas da cidade com compromissos anteriores para nova construção que importava desenvolver e era imprescindível apostar na reabilitação urbana da cidade já consolidada. Nesta óptica, apostou-se na Alta de Lisboa.
O que se verifica hoje em dia é que as opções são diferentes e estão a aprovar-se grandes urbanizações que competirão com a Alta. Melhor, substituirão a Alta. Projectos que pessoalmente considero desmedidos para a situação do país e da cidade. Em vez de se consolidar o já existente. A reabilitação urbana estagnou, a Baixa está moribunda e a Alta é para deixar morrer.
O que teve sucesso com outros tem de ser abandonado e apostar noutras soluções "mais interessantes".
Só fica enganado quem quer.
Bem tenho lido e ouvido acerca desses projectos megalómanos e nisso posso concordar que, apesar da especulação, a Alta de Lisboa tem sido uma boa oportunidade para o crescimento da cidade de uma forma mais ordenada e, também. um pouco menos onerosa para quem ainda pode adquirir uma casa em Lisboa.
Um dos graves problemas de Portugal é o facto do nosso sistema fiscal não punir fortemente quem especula, como é o caso de quem especula no imobiliário. Há muita gente que enriqueceu só à custa de esperar para vender os seus produtos imobiliários a preços sempre crescentes. Ora, com o bater no fundo das taxas de juro (o todos os níveis), esta facilidade de pedir hoje "100 e, no dia seguinte, conseguir vender por 1000" por um mesmo produto sem fazer qualquer investimento, acabou. Acabou simplesmente porque nós estamos todos endividados e com a corda ao pescoço. Estamos amarrados às obrigações de pagamentos dos juros dos nossos pesados empréstimos bancários. E acabou da pior maneira, pelo excessivo endividamento colectivo (do estado e dos particulares). E o pior é que nunca nada foi tentado para evitar este caos financeiro em que estamos mergulhados. E era fácil ter evitado isto, bastando para tal copiar os bons modelos europeus de combate à especulação.
E ainda acrescento: estamos a ser enganados e pior: nos últimos anos vivemos num embuste. Basta ver as notícias dos últimos dias. Agora que a festa das eleições acabou e que os lugares já estão ocupados pelos boys partidários já se pode revelar a nossa "nudez financeira". Há uma no atrás ainda estava tudo em festa…
E ainda mais acrescento: agora estamos totalmente nas mãos dos especuladores financeiros internacionais que não acreditam na nossa capacidade de trabalho. Em suma: está tudo invertido num país fraco que nunca acreditou naquilo que tem maior valor: a força e a importância do trabalho!
E no entanto, as pessoas vão chegando. Trazem as coisas aos poucos ou tudo de uma vez num camião. Chegam, normalmente ao Sábado de manhã, passo apressado com o entusiasmo de quem se vai mudar para casa nova. Trazem caixas. Medem janelas e testam amostras de várias cores. Penduram lençois a fazer de cortinas improvisadas, enquanto não chegam as definitivas. Dos T5, 3 já foram ocupados, assim como muitos T3, nas últimas semanas e meses.
Da CML de AC nada de bom espero, mas ver este buliço deixa-me…optimista.
Felizmente que vão chegando. Optimistas, esperançadas, felizes. E que vão ocupando os T5. É bom para a Alta.
Fui o primeiro morador dos JSB e durante dois anos o único num T5. Gostaria de ter tido mais vizinhos enquanto aí vivi. E mais comércio.
Hoje os T5 custam sensivelmente menos 100.000 euros (20.000 contos) do que em 2006 quando comprei. 20% menos em 4 anos.
Crise…
Gosto de uma boa pechincha e gosto da ideia de ter vizinhos que também gostem!
Não creio que tenha perdido 20% na venda do seu T5/T4.
Os pioneiros têm os problemas associados a serem os primeiros. Ainda não há tudo aquilo que faz de um bairro, um bairro!
Agora à medida que o tempo passa, aquilo que fazia da Musgueira um bairro reemerge e aquilo que torna a Alta de Lisboa um bairro nasce!
Vantagens daqueles que compraram uma casa e aceditam num ideal de vida num bairro que já é de todos!
O amolador voltou às ruas do bairro, o comércio instala-se, as amizades e relações de vizinhança tomam forma.
Agora quando passo na rua as pessoas cumprimentam-me "Bom dia, sr.a professora como está a Julia, está melhor?"
E um aluno, um aluno da escola que entretanto passou para a "escola dos grandes" conta-me como quem se confessa " professora não tive nenhuma negativa!"
É assim viver na Alta! (para mim!)
E nestes casos ainda bem que há "crise". A baixa dos preços das casas novas dá para ter uma ideia quanto dinheiro fácil tem sido gasto à custa do imobiliário, muitas vezes fugindo aos impostos! Existe um docente do IST que afirmava há uns anos atrás que os preços das as casas em Portugal estavam inflacionadas em 100 %!
eu fui uma das primeiras moradoras em 2005 aqui na alta,conheci varias pesoas,e continuo a conhecer,e estou contente por ver o meu bairro a crescer,de ver o comercio aqui á volta,os cabeleireiros,as casas de comida para levar para casa,lavandarias,farmacia,as azeitonas retalhadas la de cima de castelo branco,as vezes quem compra casa tem medo de sair por causa do realojamento,nao tenham,basta se ver a expo,casas de realojamento nao muito longe dos predios de luxo,apenas estao longe da vista,aqui vejo uma grande uniao,ou pelo menos a tentarem,gosto de tudo,exceto de uma coisa:o transito infernal das 8h as 9h30 da manha
Obrigado Maria pelo seu comentário.
Fico muito feliz por ver que apesar de tantas falhas, incumprimentos e politiquices que atrasam a Alta, mesmo assim, já há tanta coisa boa, mais comércio, mais gente, mais vizinhos, mais vida, mais alma.
Sinceramente.
São razões para mos sentirmos felizes. Krus Abecassis ficaria feliz.
E demonstra que o projecto, o conceito de vida subjacente à Alta não só não é impossível, como é estimulante, exequível, resistente a (quase) tudo.
Fernando Pessoa tinha razão. Vale sempre a pena…