A evidência que faltava?

Quem tem andado distraído pode juntar mais esta peça ao puzzle do mistério que envolve as sucessivas decisões políticas que têm sabotado toda a sustentabilidade o projecto da Alta de Lisboa.

É só juntar algum dados demográficos do nosso país. A maioria da população já tem casa comprada. O mercado escasseia, vendem as casinhas que estiverem acabadas, num projecto harmonioso, ao pessoal que ainda não tiver comprado casa ou que tenha consiguido vender a sua a alguém menos prevenido. É a chamada pescadinha de rabo na boca. Resumindo: as oportunidade de ganhar dinheiro a construir e vender casas já não são o que eram há 20 anos.

A notícia está toda aí em baixo. O facto do projecto de arquitectura ter sido encomendado ao atelier Risco, fundado pelo Arq.º Manuel Salgado, actual Vereador do Urbanismo, só pode ser coincidência, claro.

Entretanto, aqui na Alta, anda mais de meio mundo a dormir – SGAL, Instituições, população. Razões haverá muitas.

Ah… E não voltem a falar na falta de dinheiro, nos erros das vereações anteriores, no crash do imobiliário, na crise económica e no gang dos romenos que assaltam automobilistas nos semáforos para justificar os incumprimentos da CML com o projecto da Alta de Lisboa, está bem?

Queremos sete torres de 19 andares na zona da Matinha? A palavra cabe aos cidadãos

Por Ana Henriques

“Estamos a criar um gueto para ricos”, acusou vereador do CDS-PP, enquanto o PCP realçou a carência de equipamentos previstos no plano de pormenor

A Câmara de Lisboa decidiu ontem pôr à discussão pública a possibilidade de nascerem na zona da Matinha, junto à linha férrea e nas imediações do rio, sete torres de 18 ou 19 andares cada uma. O plano de pormenor em que se insere esta urbanização, que inclui outros prédios mais baixos, foi encomendado pela autarquia ao gabinete de arquitectura Risco, que pertenceu até há pouco mais de dois anos ao actual vereador do Urbanismo de Lisboa, Manuel Salgado.

Em 2005, a autarquia estabeleceu para aquela zona, situada perto da Expo, um índice de construção hoje considerado por muitos excessivo. “É exageradíssimo”, criticou ontem o vereador Sá Fernandes. “É criticável”, concordou outro vereador, Nunes da Silva. A opção do gabinete de arquitectura, que é hoje dirigido pelo filho de Manuel Salgado, passou por fazer crescer em altura sete dos prédios da urbanização, de forma a permitir alguma área livre ao nível do solo. Se esta solução não for aprovada, explicou o presidente do município, António Costa, a alternativa passa por uma ocupação mais extensiva do solo, embora com edifícios mais baixos. “Se não quisermos as torres, sacrificamos espaço público”, salientou. “Eu prefiro o modelo das torres, mas não dou a minha vida por este desenho urbano”, disse.

O plano de pormenor que vai ser posto a discussão pública tem ainda outros problemas, no entender dos autarcas da oposição. Desde logo a carência de áreas destinadas a equipamentos, como escolas ou centros de saúde. “A esse nível há um défice da ordem dos 66,4 por cento”, garantiu o comunista Ruben de Carvalho.

Já o vereador do CDS-PP António Carlos Monteiro pôs em causa a legalidade desta solução urbanística. “Estamos a criar aqui um gueto para ricos semelhante à Parque Expo”, observou. Um sítio onde faltam estabelecimentos de ensino, lojas e, sobretudo, vida de bairro. Na oposição, só Santana Lopes (PSD) gabou o plano: “Gosto de construção em altura”.

Os terrenos onde há-de crescer a urbanização, para junto da qual está previsto um grande parque urbano, pertencem ao grupo Espírito Santo, à EDP e à Gás de Portugal, entre outros. São eles que deverão pagar a descontaminação dos solos, sujos pelas antigas petroquímicas que ali funcionaram, segundo um documento entregue aos vereadores “à última hora”, antes de a reunião municipal de ontem, referiu o vereador do CDS-PP.

António Costa assegurou que, como estão afastadas entre si, as sete torres não correm o risco de criar uma barreira visual entre o resto da cidade e o rio.

Comments

2 Responses to “A evidência que faltava?”
  1. joao_forjaz says:

    Este artigo devia ter explicado uma coisa: o Plano de Pormenor da Matinha data de 2005, ainda Manuel Salgado não era vereador e aparece inclusivamente como autor do projecto. Se bem me lembro, quando foi eleito pela primeira vez, publicou uma lista de incompatibilidades e declaração de intenções onde fazia o levantamento das obras que o seu atelier tinha a decorrer na cidade -incluindo este Plano- e em que se comprometia a não interferir com estes projectos e o atelier a não aceitar mais trabalho no concelho de Lisboa. A menção à sua ligação ao atelier Risco era excusada por isso. Não sei se tem cumprido ou não com o que disse, mas parecia-me mais interessante o artigo ter debatido os méritos ou falhas do plano. Além do mais, não está explicado se a urbanização ficaria a cargo da CML ou dos proprietários dos terrenos -o que me parece mais plausível- num modelo de gestão semelhante ao da Alta de Lisboa.

Speak Your Mind

Tell us what you're thinking...
and oh, if you want a pic to show with your comment, go get a gravatar!