Da Baixa à Alta

grito

Uma cidade harmónica e plenamente pensada. Uma cidade activa, renovando-se a cada momento, preservando o legado histórico mas tendo a consciência de que o mesmo não é estático, de que as populações mudam, evoluem, criam novos gostos e acham novas necessidades. Uma cidade racional no planear e emotiva no construir. Feita de grandes rasgos e pequenos gestos. Da avenida que traça as linhas fundamentais de tráfego à álea que aproveita logradouros ajardinados. Da loja de especialidade ao grande armazém generalista. Uma cidade de afectos, de afagos. Uma cidade exigente de direitos e deveres.

Durante alguns anos mantive a ilusão de que esta utopia era possível.

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Na Baixa, afirmava-se uma vontade política de renovação, de reabilitação dos espaços e das ocupações, mencionava-se a necessidade do acréscimo de moradores. Nos Bairros Históricos, apesar da muito errada concretização, os Gabinetes Locais materializavam uma política de proximidade, de contacto com a reduzida população e davam um sinal claro do interesse do Município em dar mais vida – melhor vida – aos mesmos. No Alto do Lumiar, um projecto bem pensado, abrangente, globalizante, resolvia um problema de realojamento grave com a criação, não de um gueto, antes de uma extensão da cidade, socialmente heterogénea, bem equipada e melhor coordenada.

Lisboa parecia, finalmente, querer ganhar o século XXI.

Como sempre, em Portugal as esperanças pagam-se com desilusões.

A Baixa cai aos bocados, sem que o poder tenha uma mínima noção de futuro para além da vontade de multiplicar hotéis e museus. Nas poucas acções implementadas, impera a falta de senso e de sensibilidade, como é o caso do fecho do Terreiro do Paço e da transferência de todo o trânsito de autocarros para uma rua sem condições com notório prejuízo dos que nela trabalham e nela passam.

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Os Bairros Históricos são palco de obras de fachada que terminam a meio por falta de verba e de fachadas como palco de guerrilha política a exigir mais verbas. Anunciam-se milhões para obras cosméticas de pouca resistência temporal. Defendem-se intervenções irresponsáveis que ignoram a periculosidade sísmica da região num desprezo total pelos cidadãos moradores. A muita vez repetida necessidade de auto-sustentabilidade esbate-se na rigidez teórica dos regulamentos e dos processos de análise. Persiste a indigência arquitectónica, persiste a pobreza, a falta de horizontes, persistem os arranjos clandestinos.

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O Alto – esta Alta – estiola  no beco que parece não ter saída da condição de dormitório que a omissão de políticos e técnicos lhe criaram. Contratos, acordos, afirmações, compromissos, todos foram varridos para o saco de lixo histórico com que o poder costuma limpar os armários da vereação que substitui.

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Desisti de acreditar na utopia de uma cidade radiante.

Acredito cada vez mais na classe que toma – ou deixa de tomar – decisões em Lisboa. Na sua incompetência para fazer bem e na sua competência para se fazer bem. Na sua má vontade, na sua mesquinhez, na sua tremenda tacanhez, no seu provincianismo, na sua cupidez, na sua falta de preparação técnica, teórica, cívica.

Da Baixa à Alta, o que se vê é uma cidade que morre. Ruínas que hão-de ser, semi-habitadas por gente que se limita a aguentar.

Comments

4 Responses to “Da Baixa à Alta”
  1. mariamarques says:

    pois da mesmo vontade de baixar os braços,mas se o fizermos entao nada mudara,e por aki na alta ja se viu algumas mudanças graças ao movimento aqui criado,quem nao se lembra da famosa rotunda???devia-se fazer mais coisas assim…

  2. pmd says:

    Do Céu ao Inferno… em 3 meses. Alea jacta est.

    "Uma gestão transparente, cumpridora dos planos traçados e aprovados e das leis e, espero-o, com a consciência clara de que os compromissos da CML, independentemente da vereação que os tomou, são compromissos de honra. Para cumprir.
    Cidadania. Sustentabilidade. Transparência.
    Os dados estão lançados. O futuro começa agora."

    "Da Baixa à Alta, o que se vê é uma cidade que morre. Ruínas que hão-de ser, semi-habitadas por gente que se limita a aguentar."

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