DE UM SUCESSO DE FRACASSO
19 January, 2010 by Miguel Castro Caldas
Resposta à crítica da Rita Martins no Público de 19 de Janeiro de 2010 ao espectáculo Maria Mata-os.

Ponho aqui esta resposta a uma crítica que saiu hoje no Público ao espectáculo «Maria Mata-os», que está ainda em cena no Teatro Maria Matos (até amanhã) por achar que este site acolhe conversas e pensamento crítico acerca das coisas de Lisboa. Eu sei que é mais ou menos um sacrilégio responder aos críticos, que se fica mal visto, etc, mas como há cada vez menos crítica e críticos no espaço público, pareceu-me útil e construtivo contribuir humildemente com este texto para que a comunidade não se extinga, alimentando, precisamente o espírito crítico.
Ora aqui vai:
Diz a Rita Martins no público, em tom depreciativo, que para a companhia Primeiros Sintomas, «filhos do teatro independente», a revista é uma velha avó «que não conheceram, mas de que ouviram falar.» Ora, esta é, provavelmente a única frase acertada da sua crítica. Nós somos da geração em que a revista à portuguesa é um adjectivo e não um substantivo. A revista para nós é revisteira. E logo a seguir, a Rita Martins diz; «apesar da pesquisa realizada, esquecem-se que a avó não queria ser disparatada, teria brio, uma razão de ser, uma construção sólida. Ou, então, seria preferível deixá-la descansar em paz.» Aqui, é que, a meu ver, a Rita Martins falha na sua leitura, ao mesmo tempo que se esquece dos parentes mais interessantes da revista em geral (e não da portuguesa em particular), as soireés Dadas cujo principal brio consistia justamente no disparatado da sua proposta. E se para nós a revista é o revisteiro, se é isso que vemos na televisão e foi isso que vimos no parque Mayer (e este espectáculo não se compreende a não ser à luz de como encontrámos a revista no Parque Mayer), o ponto aqui é definir o que é ser revisteiro.
Ser revisteiro por exemplo, é ser consensual, é fazer uma crítica social em relação à qual toda a plateia está de acordo. A revista fez sempre isso. A revista nunca pôs nada em causa. Até no tal tempo tão saudoso da ditadura em que se diz que a revista enganava a censura, isso era mentira. A censura deixava passar, desde que não «abusasse», porque a revista ocupava um espaço de descompressão que convinha bastante ao sistema que a sabia inofensiva e apolítica. E a revista nunca abusou. Aqui sim, não quisemos seguir as pisadas da revista. Os actores vestiram-se de revisteiros para tratar de temas que não são consensuais. A Rita Martins preferia, por exemplo, que os actores aproveitassem o momento para fazerem a defesa da sua classe. Evidentemente que seria muito mais consensual falar dos artistas intermitentes do que da questão dos direitos de autor. E que a Rita Martins ainda por cima não percebeu que o malogro da lei dos direitos de autor ultrapassa em muito a escala do pagamento-de-direitos-de-autor-por-parte-de-uma-companhia-para-levar-à-cena-uma-peça e se prende muito mais directamente do que ela quer imaginar com a actual deriva generalizada do trabalho em relação à produção imaterial. A questão dos direitos de autor tem a ver com a maneira como se olha para o trabalho em geral e o trabalho cognitivo em particular, e isso afecta-nos a todos, e à Rita também, que é jornalista. E seria também muito mais consensual falar dos buracos orçamentais de Lisboa, como a Rita também sugere, sem se lembrar que falar de tapar buracos é sempre falar de reformas e nunca questionar os fundamentos das coisas, o modo como a cidade se administra (e não são as sugestões do Richard Florida um modelo de administração?)
Mas o ponto fundamental do nosso espectáculo foi o questionamento das formas; não no sentido de propor uma revista dentro da «estética contemporânea», ou a «renovação da revista», e nem sequer a «revisitação» do género, como diz a Rita Martins. Este espectáculo questiona, a meu ver, a «forma» do bom gosto – sim, porque há uma «tirania» do bom gosto, e dentro dela maus gostos que se aceitam, como o kitch ou o trash e outros que constrangem, que não conseguimos suportar – e põe a nu o vazio do discurso da «qualidade», e tenho pena que a crítica (a que resolveu ficar calada e a que falou) não tenha visto isto, que me parece tão evidente. Porque «revisitar» a revista é mexer nesse constrangimento, nesse mau gosto de que nos distanciamos, e usá-lo como coisa válida para questionar os seus próprios limites enquanto ferramenta de poder distintivo (mais do que discutir se falou disto ou daquilo, se é menos moralizante ou mais moralizante; é que esta «tirania» é um dos dispositivos mais moralizantes de todos).
Todo o nosso processo de «usar» a revista foi isto: lidar com duas formas que estão fechadas sobre si e cristalizadas – a estética da revista e o discurso sobre a estética do que é contemporâneo. Porque também há uma estética do que é contemporâneo bastante mais ligada do que ela própria é capaz de pensar à sua circulação em festivais, à sua maior ou menor capacidade de agradar a programadores, e isto vai desde a escolha da fotografia do cartaz, à escolha do guarda-roupa, a decisões relativas à própria maneira de fazer as coisas e de idealizar o trabalho.
Por isso, quando a Rita Martins diz que foi uma oportunidade perdida, eu pergunto: oportunidade perdida para quê? Para compreender esta afirmação releio a crítica e apercebo-me que toda ela está construída para chegar a esta conclusão. Treze linhas em oitenta e uma, logo no início, a enumerar o que os encenadores fizeram no ano anterior: Brecht, Beckett, Ibsen e Strindberg, fala-se em expectativas, utiliza-se a expressão «trabalhos notáveis» e, para este trabalho, «proposta inusitada». Como se, segundo uma argumentação valorativa da primeira à última linha (e fosse a atribuição de valor a única maneira de falar de espectáculos, ficar-nos-ia ainda a questão de quais os parâmetros dessa atribuição de valor) os trabalhos passados destes encenadores não permitissem uma coisa destas, de tão pouca qualidade. Ora, nós fugimos a sete pés de fazer uma «revista de qualidade». Isso seria um grande disparate. A meu ver foi uma oportunidade ganha porque de algum modo tocámos nesse grande constrangimento de que falei há pouco. Essa vergonha alheia. Foi uma oportunidade ganha no sítio certo, porque foi no coração da reflexão que neste momento se faz em Lisboa sobre a maneira de pensar e fazer teatro contemporâneo (e já vimos que contemporâneo também pode ser uma pressão), e no tempo certo, porque assistimos cada vez mais à pressão das programações com selo, ditas de «qualidade». Essas sim, sobre as quais os críticos só conseguem dizer dos actores que vão bem ou mal, e dos encenadores, que se afirmam ou desafirmam enquanto promessas que são ou enquanto pilares da «qualidade» e do «bom gosto». E é neste aspecto que o nosso projecto de fazer «uma revista» teve um carácter extremamente político. Porque é lógico que a programação de um teatro municipal não se devia reger pelos padrões de qualidade (tão enfadonhos que são) mas sim pelos padrões de pesquisa, experimentação, vontade de participar na cidade, porque a arte não é outra coisa senão isso. E queria a Rita Martins que os actores se fossem queixar para cima do palco, em tom revisteiro, da segurança social.
O título óbvio da crítica da Rita Martins é «Maria mata o quê?». O espectáculo não respondeu a essa pergunta óbvia e Rita termina a sua crítica obviamente, idealizando uma revista briosa com razão de ser e construção sólida que terá em tempos existido (terá mesmo?) para logo a seguir se rogar ao direito (moralizante) de dizer que se devia ter deixado a revista descansar em paz.
No movimento da vénia, quando os actores se curvam no fim do espectáculo, não estão a agradecer os aplausos, estão a dar o pescoço, estão a dar o corpo ao manifesto. A Maria pode ser o público. Pode ser a Rita Martins, que nos mata.
Porque outra coisa quase, quase proibida é criticar críticos.
Miguel Castro Caldas





http://jornal.publico.clix.pt/noticia/19-01-2010/...
Maria mata o quê?
Maria Mata-os
Texto de Miguel Castro Caldas Ensaiadores: Bruno Bravo e Gonçalo AmorimCom Anabela Brígida, Bruno Bravo, Bruno Simões, Catarina Mascarenhas, David Almeida, Élvio Camacho, Gonçalo Amorim, Inês Pereira, Mónica Garnel, Ricardo Neves-Neves, Rita Aveiro, Sandra Faleiro e Sérgio Delgado
No ano velho, Gonçalo Amorim encenou Brecht e Bruno Bravo levou à cena Beckett, Ibsen e Strindberg. Actores e investigadores de formas teatrais, eles começam o novo ano como ensaiadores da revista Maria Mata-os, uma proposta inusitada que cria as maiores expectativas. Estas aumentam quando revemos 2009 e relembramos os trabalhos notáveis dos actores que saltam, agora, para a revista.
Corpos enredados, pernas postiças para cima, para baixo e para os lados. Com esta imagem inicial se dá o mote a um espectáculo estilizado e extravagante, fragmentário e absurdo. Actores e actrizes desenham figuras grotescas, acentuam os "tiques", amplificam os gestos estereotipados. O nonsense, dado na linguagem e na repetição dos gags, alastra pelas cenas e as interrupções sucedem-se, multiplicando os momentos de irrisão. Por entre as fissuras de tamanha dispersão, entra tudo e cabe tudo, desde a greve dos camionistas, que traz à baila, em tom moralizante, a sociedade de consumo desenfreado, aos direitos de autor, que são o pesadelo dos artistas. Como se pagar direitos de autor fosse pior do que estar sujeito a uma profissão de carácter intermitente, sem direito a contrato de trabalho, segurança social, reforma. Criticam-se os portugueses em geral e os presidentes da câmara em particular, sem grande convicção nem acuidade. Como se não houvesse buracos em Lisboa, buracos orçamentais e outras quedas monumentais. A brincar a brincar, podiam dizer-se tristes verdades, mas elas diluem-se na exuberância ostensiva do absurdo, quando a realidade é já tão rica nessa matéria. E por isso fica um sabor a oportunidade perdida.
Existem bons momentos (o dramaturgo a sair da cartola gigante), óptimos momentos (a fiscalização da peça de Pinter; Ana Brandão e João Paulo Esteves da Silva são uma bênção musical), mas sobejam os irrelevantes. No seu todo, o espectáculo torna-se cansativo e perde a finalidade. Faz-se a caricatura do ridículo e a sátira da própria sátira, o que, inevitavelmente, torna inconsequente o revisitar do género, vazio e superficial o jogo das formas.
Filhos do "Teatro Independente", a revista é, tanto para os ensaiadores como para os actores e actrizes, uma velha avó que não conheceram, mas de quem ouviram falar. Apesar da pesquisa realizada, esquecem-se que a "avó" não queria ser disparatada, teria brio, uma razão de ser, uma construção sólida. Ou, então, seria preferível deixá-la descansar em paz.
Rita Martins
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/19-01-2010/...
Maria mata o quê?
Maria Mata-os
Texto de Miguel Castro Caldas Ensaiadores: Bruno Bravo e Gonçalo AmorimCom Anabela Brígida, Bruno Bravo, Bruno Simões, Catarina Mascarenhas, David Almeida, Élvio Camacho, Gonçalo Amorim, Inês Pereira, Mónica Garnel, Ricardo Neves-Neves, Rita Aveiro, Sandra Faleiro e Sérgio Delgado
No ano velho, Gonçalo Amorim encenou Brecht e Bruno Bravo levou à cena Beckett, Ibsen e Strindberg. Actores e investigadores de formas teatrais, eles começam o novo ano como ensaiadores da revista Maria Mata-os, uma proposta inusitada que cria as maiores expectativas. Estas aumentam quando revemos 2009 e relembramos os trabalhos notáveis dos actores que saltam, agora, para a revista.
Corpos enredados, pernas postiças para cima, para baixo e para os lados. Com esta imagem inicial se dá o mote a um espectáculo estilizado e extravagante, fragmentário e absurdo. Actores e actrizes desenham figuras grotescas, acentuam os "tiques", amplificam os gestos estereotipados. O nonsense, dado na linguagem e na repetição dos gags, alastra pelas cenas e as interrupções sucedem-se, multiplicando os momentos de irrisão. Por entre as fissuras de tamanha dispersão, entra tudo e cabe tudo, desde a greve dos camionistas, que traz à baila, em tom moralizante, a sociedade de consumo desenfreado, aos direitos de autor, que são o pesadelo dos artistas. Como se pagar direitos de autor fosse pior do que estar sujeito a uma profissão de carácter intermitente, sem direito a contrato de trabalho, segurança social, reforma. Criticam-se os portugueses em geral e os presidentes da câmara em particular, sem grande convicção nem acuidade. Como se não houvesse buracos em Lisboa, buracos orçamentais e outras quedas monumentais. A brincar a brincar, podiam dizer-se tristes verdades, mas elas diluem-se na exuberância ostensiva do absurdo, quando a realidade é já tão rica nessa matéria. E por isso fica um sabor a oportunidade perdida.
Existem bons momentos (o dramaturgo a sair da cartola gigante), óptimos momentos (a fiscalização da peça de Pinter; Ana Brandão e João Paulo Esteves da Silva são uma bênção musical), mas sobejam os irrelevantes. No seu todo, o espectáculo torna-se cansativo e perde a finalidade. Faz-se a caricatura do ridículo e a sátira da própria sátira, o que, inevitavelmente, torna inconsequente o revisitar do género, vazio e superficial o jogo das formas.
Filhos do "Teatro Independente", a revista é, tanto para os ensaiadores como para os actores e actrizes, uma velha avó que não conheceram, mas de quem ouviram falar. Apesar da pesquisa realizada, esquecem-se que a "avó" não queria ser disparatada, teria brio, uma razão de ser, uma construção sólida. Ou, então, seria preferível deixá-la descansar em paz.
Rita Martins
VIII
ELOGIO DOS CRÍTICOS
Não escolhi este tema por acaso, escolhi-o por me sentir reconhecido. Porque estou, de facto, tão reconhecido como reconhecível.
O ano passado fiz várias conferências sobre «A Inteligência e da Musicalidade nos Animais».
Hoje vou falar-vos «Da Inteligência e da Musicalidade nos Críticos». O tema é quase o mesmo mas com modificações, bem entendido.
Amigos meus disseram-me que era um tema ingrato. Ingrato, porquê? Não há nele ingratidão nenhuma; pelo menos, eu não vejo onde nos agarrarmos para dizer isso. Vou pois fazer, sereno, o elogio dos críticos.
Não conhecemos suficientemente os críticos; ignoramos o que fizeram, o que são capazes de fazer. Numa palavra, são tão desconhecidos como os animais, embora tenham, como eles, a sua utilidade. Sim.
Não são apenas os criadores da Arte Crítica, que é Mestra de Todas as Artes, mas os primeiros pensadores do mundo, os livres pensadores mundanos se assim podemos chamar-lhes.
De resto, foi um crítico quem posou para o Pensador de Rodin. Eu soube-o há quinze dias, o máximo três semanas, por um crítico. O que me deu prazer, muito prazer. Rodin tinha um fraco, um grande fraco pelos críticos… Os seus conselhos eram-lhe caros, muito caros, demasiado caros, acima de qualquer preço.
Há três espécies de críticos: os importantes; os que são menos; os que não são nada. As duas últimas espécies não existem: são todos importantes…
*
SATIE, Erik, Memória de um Amnésico , Selecção, tradução, cronologia e notas de Alberto Nunes Sampaio, ‘colecção memória do abismo’, Hiena, Lisboa, 1992.
(Este comentário é muito longo, diz o programa, tem que ser dividido em vários. Fica o aviso.)
Parte I
Sobre a crítica do Público, basicamente o que há a dizer é que "foi pior a emenda que o soneto". Se a peça é moralizante, a crítica é hiper-moralizante!
Esta de achar que quem dirigiu Strindberg e Ibsen não pode fazer coisas mais cómicas a seguir, tem dois problemas: o primeiro é o típico provincianismo de achar que tudo o que faz rir tem menos “qualidade” e é pouco sério. O segundo problema é mais sério ainda, sobretudo para quem quer fazer crítica de teatro: já ouviu falar do Mário Viegas? (Calma, Primeiros Sintomas, não estou a comparar-vos, não desatem já aos pulos… Gostei, mas não tanto!) Importa explicar à Rita que fazer comédia não é em si pior nem melhor que fazer drama, que depende da comédia e do drama e de como se faz cada um; que fazer um texto que está a ser construído é muito diferente de fazer um texto escrito e acabadinho, já sem emendas a lápis à margem e falas a mudar a cada dia — mas que também já não permite dar ideias ao autor.
No "Maria Mata-os" não é tudo maravilhoso, mas, caramba, não é nada do que a Rita diz. A entrada do dramaturgo em palco (enquanto tal e não a fazer um qualquer personagem) é efectivamente a cena mais surpreendente. Corrija-me quem souber mais de teatro, mas eu nunca tinha visto tal coisa e não é por ter visto pouco teatro.
Parte II
Queixa-se a Rita que faltaram muitos temas: pois faltaram e se fossem falar num espectáculo de tudo o que vai mal no Mundo, não teria fim! Mas sobre temas, para mim foi muito curiosa a forma como se falou do Santana: uma crítica à crítica unânime. Dizer mal dele seria fácil (demasiado fácil…), mas constatar em vez disso, que nos entretemos a bater no mesmo há uma série de anos e limitamo-nos por vezes a suspirar de alívio de já não termos que o aturar, em vez de andarmos para a frente e nos preocuparmos com as questões actuais é menos consensual e talvez bem mais acutilante. Embora eu pessoalmente tivesse sentido a falta da muito revisteira actualização diária consoante a notícia do dia — e no dia em que vi o espectáculo a grande notícia era o anúncio da condecoração.
O que menos gostei na peça foi a repetição de momentos às vezes demasiado sexuais. Aquela Europa podia ter sido menos explícita e teria mais piada. É um facto que os países grandes passam o tempo a "lixar" os mais pequenos e que o "tuga" mais típico tem a mania que é Zezé Camarinha universal… mas será que era preciso insistir tanto?
A crítica do Público fala do texto, depois do texto e ainda… do texto — ou dos temas referidos… no texto. Mas pouco falou do desempenho dos actores. É pena não ter ficado escrito no Público que o "compère" foi muito bom: no tom, no improviso, nos imprevistos que aconteceram e que ele "safou" muito bem. O tom aqui não é um pormenor, porque não pode ser o tradicional apresentador de concursos, nem pomposo como nos Óscares, mas também não tem um personagem a que se agarrar para ir buscar os tiques ou um enredo.
Musicalmente, à parte a grande e excelente surpresa do Manuel João Vieira, é que eu não gostei. As cantoras/actrizes eram desafinadas e com uma voz muito pouco matura. O Czerny dá-lhe uma certa piada, mas só percebe quem já foi torturado pelo mesmo estudo… (sim, "torturado" é a palavra certa)!
Parte III
Não sei nada de revista e por isso não conheço a utilidade de ir buscar o género, reavivá-lo ou se deveríamos simplesmente deixá-lo morrer. O que sei é que finalmente no mundo do Teatro “erudito” ou “de vanguarda” (eu não conheço bem os termos usados no Teatro, mas se for em analogia com os da Música, são todos maus) há quem lance o mote para esta discussão (e no caso das novas gerações, para esta descoberta) e é pena que não tenha sido aproveitado para debater a sério. Se discutimos tanto as negociatas (precisamente do Santana) à volta do Parque Mayer, porque é que não discutimos a revista em si? E se a Rita tem uma opinião tão moralizante a esse propósito é pena que não a tenha desenvolvido. A Primeiros Sintomas teve esta iniciativa que podia ser polémica, podia ser uma alavanca para se debater finalmente que raio é a revista, para que serve, porque se mantém e em que condições, etc. — sem ser da habitual perspectiva saudoso-salazarenta — e é com muita pena que percebo no último dia de representações que a imprensa, os agentes culturais (oficiais ou não) ou os "opinion makers" que criticaram tanto as negociatas santanenses, ninguém quis aproveitar e fazer aqui uma discussão séria! Nem que seja para nós, os tais “netos”, ficarmos a saber quem é a “avó” que está moribunda!
Tenho pena se não estiverem previstas mais representações (em itinerância, por exemplo), porque as peças de teatro ganham sempre com um maior à vontade, a maturação e a experimentação no palco com o público. Aqui está o drama — e a Rita, tão preocupada com as condições de trabalho dos artistas, que não focou este ponto nevrálgico? — das companhias independentes em sede própria e dos grupos formados "ad-hoc". Três dias aqui, dois além, uma semanita já não foi nada mau… mas há uma maturação e um crescimento nos próprios papéis que só se faz em frente ao público, não é possível acontecer em ensaio.
Helena Romão