Detesto ser o portador de más notícias
15 January, 2010 by Pedro
Acontecimentos como o do sismo de há três dias no Haiti acentuam-nos a consciência da fragilidade da nossa existência, do quanto a vida é dependente do acaso, da rapidez com que podemos passar do conforto para o desespero. Como sempre – e porque a isso somos condicionados (cada vez mais condicionados!) pelo meio – perdemo-nos em questiúnculas e materialidades que nos parecem absolutas, quando, afinal, não são mais do que insignificante poeira cósmica no andar dos tempos.
A especificidade do local, no entanto, parece deixar-nos, paradoxalmente, mais descansados: “aquilo” aconteceu num país paupérrimo, de construções desleixadas e anárquica fiscalização. Nunca aconteceria por aqui, numa cidade com uma herança de construção pombalina anti-sísmica, com regulamentação europeia e serviços camarários profícuos.
Nunca?
Já aqui disse e me repeti na questão da adequação das nossas edificações a uma zona de probabilidade sísmica elevada. Face à degradação de grande parte do parque habitacional das zonas antigas da cidade, à péssima construção de parte das mesmas, às alterações efectuadas ao longo dos anos sem sentido anti-sísmico, face ainda à estreiteza das ruas, Lisboa não está preparada para resistir a um sismo próximo com a magnitude do agora verificado no Haiti.

Palácio em Port-au-Prince: nem só de construção pobre vive a destruição num sismo (fonte: Daily Telegraph)

Palácio em Lisboa: desconhecem-se obras de reforço sísmico, desconhece-se a resistência do edifício a sismos (fonte: Arquivo Fotográfico da CML)
O caso é ainda mais grave porque me aparece muito difundida a ideia – se não esta, pelo menos a prática – de que não vale a pena ou não é necessário, utilizar técnicas de reforço estrutural anti-sísmico em edifícios a reabilitar. Disso são demonstrativas as estimativas de custo que baseiam quem decide políticas de reabilitação, as quais, pelo seu valor diminuto, pouco mais permitirão que medidas de cosmética arquitectónica.

Parede de fachada de edifício na Graça: é dela que depende a capacidade resistente - veja-se a falta de homogeneidade do material
O argumento de que o facto dos edifícios terem resistido até agora ser demonstrativo da sua resistência anti-símica, seria risível, se não estivesse tanto em jogo. É indigno de um técnico responsável apresentá-lo como justificativa: onde está a base científica, onde está o cálculo demonstrativo?
Lisboa está em risco e cada dia que passa aumenta esse risco. Aumenta o risco que corremos, enquanto habitantes, enquanto utilizadores dos espaços construídos, enquanto frequentadores dos espaços públicos.

Rua do Bairro Alto: a derrocada das fachadas, por parcial que seja, tornará difícil a sobrevivência dos passantes. As ruas, não é possível alargá-las; já os edifícios poderão ser reforçados.
Lisboa precisa urgentemente de um plano concelhio de reabilitação. Mais do que grandes obras públicas, mais do que alargamentos viários, Lisboa – e o país, já que é frequentada diariamente por cerca de um terço da população nacional – necessita de concentrar recursos numa grande operação de saneamento estrutural.
Sob pena de voltarmos a ter de chorar os vivos e enterrar os (milhares de) mortos.
(Voltando ao Haiti: várias ONGs portuguesas estão a organizar recolhas de fundos para ajuda às vítimas. A Cruz Vermelha Portuguesa é uma delas – ver aqui)






Parabéns pelo post, Pedro. Tenho muita pena que o que escreves sobre este assunto, e já o escreves há anos, não seja entendido porque quem devia ser. Mas o mais trágico não é isso, como sabes. É o que irá acontecer quando a terra tremer a sério. O que dirão nessa altura os responsáveis de agora? No país da não-inscrição não é difícil prever.
E o problema não são só as construções antigas. As modernas também não dão garantias a não ser aquela que vem no papel…
Enfim… Diz quem sabe que às vezes nem as do papel.
Só para acrescentar: eu não imaginava quanto mal construído pode estar um prédio novo! O lote 22 da Colina de S. Gonçalo mete água por tudo o que é lado. O pior é que já há elevadores desligados devido ao perigo de curto circuito eléctrico! Mas o pior é que esta situação já foi denunciada à SGAL há muito tempo. E esta empresa deveria actuar de acordo com a garantia e, no entanto, até agora NADA!
Afinal não é só a CML que funciona mal na Alta de Lisboa… Isto dava um bom texto que eu deveria escrever se tivesse tempo! É incrível como vivemos num grau de insegurança que muitas vezes não suspeitamos!