O Horror
29 December, 2009 by Pedro
Resolveram os físicos de antanho várias perplexidades de fenómenos naturais com uma teoria que ficou conhecida, na língua franca de então, como “Horror Vacui” ou Horror ao Vazio. O avanço do conhecimento tornou-a obsoleta, não sem antes deixar descendência na Pintura (o horror de deixar por preencher qualquer espaço na tela que ainda hoje assola muito pintor de Domingo) e em Portugal, ligeiramente modificada, lusamente adaptada, perfeitamente assimilada.
Chama-se Horror ao Bem Feito.
Notem bem, não é Amor ao Mal Feito. É mais subtil, é mesmo horror a que qualquer coisa seja, permaneça ou evolua bem feita. Não é incapacidade para fazer bem feito – é incapacidade de admitir o bem feito.
Comecemos por um exemplo macro: o projecto “Alto do Lumiar”. Não é que o Plano tivesse sido mal feito – não foi. Não é que a CML e a SGAL não se tenham apetrechado com serviços e processos capazes de garantir o bom entendimento das partes e o desenvolvimento dos trabalhos - apetrecharam-se. Não é que todos os técnicos que em alguma altura do processo nele participaram não tivessem o currículo escolar e profissional apropriado para o bem fazer – tinham-no. Não é que os moradores não tenham capacidades cívica e humanas para viverem em comunidade, para exercerem os seus direitos e deveres de cidadania – têm-nos. E no entanto… Os contratos não são cumpridos, os prazos não são cumpridos, as obras não são feitas, os espaços não são preservados, não são mantidos, não são limpos. Porquê? Ah, lá está, todos nós tugas temos este inprint genético, todos temos esse Horror ao Bem Feito.
Dito isto e porque, via facebook, o Tiago lançou a questão das (futuras) inundações na Alta, resolvi falar da situação da Baixa… do Lumiar.
Como se lembrarão os que por aqui andam há mais anos, há dois Invernos atrás tanto a Alta como a Baixa do Lumiar ficaram em estado de sítio após uma noite particularmente pluviosa.
Cheias na Alta: O Parque Oeste como faixa de rodagem
Foi uma manhã pedagógica por várias razões. Por, muito visivelmente, quando perante situações mais extremas, não existir grande diferença de incivilidade entre a maioria dos habitantes da Alta. E, principalmente, por se descobrir que as infra-estruturas de esgotos actualmente construídas são insuficientes para prevenir uma cheia. Faltava o lago da terceira fase do Parque Oeste (está quase); faltavam substituir parte dos colectores existentes, de menor diâmetro que os implantados via urbanização da Alta (ainda faltam). A Baixa do Lumiar está assim dependente das infra-estruturas a construir na Alta para ficar a salvo de inundações. Inundações provocadas pela água vinda da Alta, antes um terreno quase totalmente permeável, hoje um espaço com largas áreas impermeabilizadas.

Nem a grande obra de engenharia do viaduto em fundo é suficiente para inspirar a resolução dos pequenos problemas: mesmo sem grandes chuvadas, a Azinhaga da Cidade inunda facilmente
Nada disto seria um problema se tudo estivesse concluído como já estava planeado.
Mas não está.
Lembram-se por onde começámos? Pois, o bom e velho Horror ao Bem Feito…

Sem água a chegar, este sumidouro permanece quase cheio, sinal visível de um assoreamento quase total.
Seria suposto que os serviços municipais, conhecedores desta situação de risco (se nós, pobres bloggers cívicos a conhecemos, como não o poderão saber os serviços?), fizessem os impossíveis para evitar a existência de mais factores agravantes da situação e varresem as ruas com freguência, limpassem as sargetas e sumidouros diligentemente, procurassem evitar depressões em ruas e passeios. Seria… se não fosse o tal Horror ao Bem Feito…
Existem serviços de limpeza na Câmara? Existem.

O Outono já acabou mas as folhas continuam acumuladas nas ruas. É difícil acreditar na segurança de uma passadeira quando se corre o risco de escorregar no monte de folhas putrefactas e enlameadas e de encharcar os pés nas poças que se multiplicam
Existe uma Junta de Freguesia que supostamente vela pelos interesses dos cidadãos? Existe.

Os cidadãos agradecem a preocupação da Junta em requerer a instalação de "frades" nas bermas dos passeios. Mais agradeceriam se a preocupação se estendesse à criação de medidas que evitassem empoçamentos como este. Haveria menos banhos.
Existe um Vereador responsável pela Limpeza Urbana que nos andou anos a dizer que “fazia falta”? Existe.
Existem uma vereação e uma oposição que juraram pela Ética e pela Moral que a cidade era o seu amor, o seu encanto, a sua paixão e os lisboetas o seu desvelo, a sua primeira preocupação, a sua única motivação? Existem.
Então? Então, há o Horror pelo Bem Feito, é o que é…











Muito pertinente Pedro. Excelente post. O mais gritante é que é tão mais fácil fazer melhor, muito melhor. Basta mais empenho, mais brio, mais "pica" (perdoem-me a gíria). Informação à partida não falta. E conhecimento também não. Então por que falha? Talvez a explicação esteja no síndroma referido no post. Ou então é mesmo incompetência.
Bravo, Pedro!
E dito assim, parece tão óbvio e tão simples, não é?
E concordo contigo: todos sabem fazer melhor. O projecto da Alta tem condições únicas para ser um sucesso. Não é, porque tal como na Baixa do Lumiar e um pouco por toda a cidade, há uma negligência e um "deixa andar" que é insuportável. É o horror pelo Bem Feito…
Eu diria que o "imprint genético" que "nós tugas" temos (se é que há algum) é este impulso de estar permanentemente pessimista, com atitude de bota-abaixo e de desconfiança (e os blogs têm sido canal para isto ad nauseam)… E se calhar daí deriva o mal feito, porque se acha à partida que não vale a pena fazer bem, porque o vizinho não merece e a seguir vai dizer mal de certeza.
SIm, houve cheias; concordo, há coisas mal feitas; claro, há e haverá sempre muita negligência. Mas isto é um mal humano, não se passa "só neste país". A única diferença é que nós, perante estes incidentes, achamos que isto é o "nosso fado" e não há nada a fazer, e por isso ficamos só com as lamentações. Outros seguem em frente: criticam, apontam os erros e todos se mobilizam e colaboram para os emendar. E isto não é nada de transcendente, basta que cada um se disponha a isso.
Bom ano 2010 para a Alta de Lisboa!
eh pá, e esse tipo de comentário resolveu mesmo bué coisas. parabéns.
a negligência é um mal humano?
Tem toda a razão cvp – pelo menos relativamente ao senhor que ia à minha frente na passadeira que fotografei e deu uma valente queda ao escorregar nas folhas acumuladas: foi mesmo uma atitude de bota (no caso dele, sapato) abaixo.
Quanto ao restante comentário, não percebi nada.
Não percebi se aterrou neste blog pela primeira vez e acha que, aqui pelo Viver é só desconfiar ou pessimistar ou lamentar. Nem se pertence ao grupo dos situacionistas militantes que não podem ver uma crítica que logo rasgam as vestes e clamam contra os Velhos do Restelo (nestes últimos anos tem estado muito na moda, este contra-ataque) e assim se sentiu no dever de enfiar o Viver no saco dos blogues que são os causadores pela inércia do Estado (claro está: os serviços não fazem nada porque irão ser sempre criticados – já tinha visto mita justificação mas esta é sublime).
Finalmente, não compreendi a sequência da sua argumentação: primeiro afirma que as coisas funcionam mal porque, não importa o que se faça, quem ser-se-à sempre criticado. Depois, relativiza e constata que a negligência é um mal humano – afinal não são os bloggers os seus causadores. Finalmente, apela à participação de todos. Ora, não é isso o que o Viver anda a fazer desde que nasceu? Onde está o pecado dos blogs, então?
É realmente impressionante! E muito verdade que, por cá, demasiadas vezes não se faz Bem Feito, mesmo quando criadas as condições para que isso aconteça.
Porquê? Porquê? Estou farta de reflectir sobre o assunto mas não consigo entender…
A natureza humana é o que é!
Há dois tipos de motivadores para se fazer bem, os intrínsecos e os extrínsecos. Há na espécie humana muitos indivíduos a quem bastam os intrínsecos.
Mas para a maioria os motivadores extrínsecos são os únicos que os fazem mover.
Para a CML que ganhou em todas as freguesias da Alta o grande motivador extrínseco são o número de votos. Se ganharam é porque podem continuar a fazer o "bom trabalho"!
Quanto aos seus funcionários não vão perder o emprego porque muda a cor política dos seus superiores, mas também ninguém lhes paga mais por fazer bem. Onde estão os motivadores extrínsecos? pois é! Podemos contar apenas com aqueles que retiram prazer do simples facto de fazer bem!
Quanto à Junta do Lumiar que da minha experiência tem pessoas muito competentes. Tem uma infelicidade! Não é da mesma cor política que a CML e por isso o dinheiro não lhe chega com a mesma fluidez que a água vinda da Alta chega à baixa!!!!!!
Não há portanto um horror, faltam apenas os motivadores.
É a natureza humana. E tugas ou não, somos todos humanos!
Antes de mais, re-bem-vindo, Pedro. Bom texto e boas fotos.
Depois, como não me apetece dizer apenas lugares-comuns, apenas dizer que nos cabe a todos ter Horror ao Horror pelo Bem Feito e saber agir em consequência. Saber exigir, saber criticar, saber propôr, saber elogiar.
Que a nossa atenção, pressão e disponibilidade sejam os motivadores dos 11.000 que recebem ordenado dos nossos bolsos.