Gostava de um Terreiro do Paço terreiro terreiro
7 June, 2009 by Miguel Castro Caldas

Gostava de um Terreiro do Paço terreiro terreiro, que cheirasse a terra quando chovesse (como no projecto de 1992 dos arquitectos José Adrião e Pedro Pacheco), um terreiro que as pessoas atravessassem também diagonalmente, sem calçada à portuguesa nem desenhos no chão, mas também sem esplanadas, que aquela zona é de ventos contraditórios que rebolam e entornam o copo de plástico do sumo de laranja que custaria cinco euros, um terreiro livre de esplanadas permanentes, um terreiro-espaço-vazio-sem-utilidade-nenhuma, mas que acolhesse de vez em quando no seu silêncio formal e institucional a informalidade de um circo que viesse a passar por ali, ou um festival de roqueiros do Montijo, ou uma feira mensal de gado, ou de livros usados, ou de tudo isso junto, com as couves e as cenouras biológicas, e depois ao fim do dia se desmontasse tudo, gostava que a relação da cidade com o rio fosse mais feita pelo Porto de Lisboa do que pelo dinheiro do turista, gostava de indicar o caminho para Alcântara apontando o dedo, é só seguir os contentores, ah, e já agora não se esqueça, senhor turista, de ir ver os quiosques no Cais do Sodré às seis da matina cheios de gente a comprar o jornal. Porque se não houvesse os contentores coloridos não haveria gente a comprar jornais de manhã, não haveria Porto de Lisboa nem «o sentido marítimo desta hora», e gostava pela baixa acima, que aquilo não se tornasse num centro comercial ao ar livre, que deixassem continuar os indianos e os chineses, e deixassem lá as paredes interiores das casas como estão, que seja como for, quando o terramoto vier cairá tudo pela terra dentro porque as estacas já estão secas e podres porque lhes tiraram a água.



Também gostava do cheiro a terra molhada quando chovesse….mas não gostaria de certeza da poeira levantada pelo vento que sempre existe no Terreiro do Paço.
Ora aí está! Como vivemos hoje e não há cem anos atrás, o projecto dos arquitectos José Adrião e Pedro Pacheco leva isso em conta e prevê um sistema (que eu não sei explicar) que mantém a terra agarrada ao chão. Por isso não há poeira levantada. Embora, sinceramente, não me importasse nada com ela. Entre a poeira e o monóxido de carbono… Quando vamos à praia tb não exigimos que a areia não se levante com o vento.
Mesmo assim, há uma diferença entre um espaço natural e um espaço urbanizado, ou não?
Sim, claro. Mas o chão de terra batida é interdito ao espaço urbanizado? Os jardins não fazem parte do espaço urbanizado? Admito que exagerei um pouco ao comparar a poeira do chão de terra num espaço urbanizado com a areia da praia. Admito.
Li e gostei da ideia! Gosto de sitios sem nada, para poderem suportar tudo, até que o mar se irrite e dê cabo do que for…
Pois é Miguel, talvez o Terreiro do Paço de cara séria escape ao super-desenho. Lisboa já tem tanto "chão" para olhar (fabuloso aliás). Não fazia mal deixar o Terreiro mais selvagenzinho, na suspeita de estarmos quase quase à beira do Atlântico…e tantas coisas mais.
Vera
é isso.
O Terreiro acabou quando o Paço pereceu às mãos conjuntas do sismo e do maremoto. O Terreiro ficou, curiosamente, na memória genética das gerações que insistem em assim o continuar a crismar, apesar do iluminismo do Marquês e da monumentalização do espaço operada pelos projectos de Eugénio do Santos.
Eu entendo que o Marquês quis um espaço em que o vazio servisse para realçar a grandiosidade da coroa ("para além de mim, o deserto"), arrastando para essa grandiosidade os comerciantes, unidos na Bolsa, instalada no local.
A Praça seria assim um local simbólico; um local sem uso físico para além da sua condição de passagem ou de efeméride (não coincidentemente, era onde o regime de Salazar realizava as cerimónias do dia de Portugal).
A mentalidade burguesa sempre teve horror ao vazio. Espaços sem utilização são espaços sem rendimento, espaços sem porquê. É provavelmente essa a razão porque desde sempre se procurou preencher o vazio da Praça quer através da plantação de árvores (!!!) quer, mais prosaicamente, através da sua transformação em parque de estacionamento, destruindo subtilmente a sua dimensão formal e o seu carácter propagandístico.
No presente, dividimo-nos entre a manutenção quase acéfala do antigo (porque sim) e a reclamação para o uso popular de todos os espaços da cidade (vejam-se, por exemplo, as polémicas com o Porto de Lisboa). Desta dicotomia nasce a polémica presente, com a reclamação para o peão de toda a área da Praça, incluindo as faixas de circulação de veículos, a pretensão de ocupação das arcadas com esplanadas, o uso hoteleiro para os edifícios. Impulsionada por estas, nasce assim a discussão sobre qual será a melhor forma de ocupar a Praça.
A melhor forma de ocupar a Praça é… desocupando-a.
Quanto aos pormenores de actualização/recuperação: o projecto do Arq. Bruno Soares prevê a utilização de terraway no pavimento. Ao contrário do que o nome indica, não é constituído por terra, antes por gravilha aglomerada com resina. É porosa, de aspecto natural e de bom pisar. Tem a vantagem de não levantar poeira com o vento (
). No que às "diagonais" propostas, tanto a sua implantação como a consequente discussão, parecem-me uma perca de tempo e de dinheiro. Grosso modo, em intervenções paisagísticas, os desenhos de pavimento de grandes dimensões só são perceptíveis de duas maneiras: ou pela leitura dos desenhos ou, literalmente, em voo de pássaro. Discutir se fica bem ou mal o peão ser encaminhado pelas diagonais, se o desenho é agressivo ou não, é pouco menos que teórico.
Portanto, estas palavras todas para dizer que sim, concordo contigo em quase tudo, Miguel. Só acho que devemos ter uma Praça monumental, símbolo de entrada e de abertura da cidade ao rio e ao exterior, sinal de acolhimento bem complementado pelo Cais das Colunas (mais uma vez, o regime de Salazar compreendia esses sinais — a rainha Isabel II de Inglaterra entrou no país pelo Cais das Colunas onde a esperava o presidente da República) e não um terreiro neutro, território neutro.
Vivemos de símbolos. Carecemos de auto-estima. Porque não havemos de utilizar aqueles que nos foram legados em proveito próprio? De pobrezinhos e honrados já tivemos anos suficientes.
Vou derivar um pouco porque o que me interessa na Praça do Comércio é que ela deixe de ser parque de estacionamento e pegar no Porto de Lisboa.
Não sei se ter esplanadas por baixo das arcadas será tão mau como diz o Miguel. Espero é que não haja esplanadas por tudo quanto é passeio.
O problema do Porto de Lisboa é bem diferente, para mim.
Temos uma cidade que desce para um rio, com uma luz fabulosa e que poucos lisboetas aproveitam esse mesmo rio.
Não tem sentido, joje em dia, o Porto de Lisboa ocupar quilómetros de zona ribeirinha só para pôr os contentores.
Deverá haver pela certa, espaço um pouco menos nobre para os localizar.
Não sei se há, Marta – questão de calados e canais de navegação.
Sei que os pilares da ponte Vasco da Gama estão a contribuir em muito para o assoreamento do rio na zona próxima e a diminuir o espaço de navegação. E sei que a nova ponte irá contribuir ainda mais para a "desnavegabilidade". O que quer dizer que, ou achamos que a cidade e o país se aguentam muito bem sem porto ou temos de viver com o que inventámos.
Porque é que a cidade há-de viver de costas voltadas para o porto? O que é preciso é cerzir cidade e porto. Não me importo de passear vis a vis com os contentores desde que me deixem ter acesso à frente ribeirinha.
Quanto às vistas… Eu também gostava de ver o rio do Saldanha ou do Rato ou da Estados Unidos da América… Deito abaixo todos os edifícios que me tapem as vistas?
É isso mesmo, sem tirar nem pôr. E uma das coisas magnificas que Lisboa tem é ser a cidade do rio ao virar da esquina ao fundo da rua, o rio está em toda a parte e aparece quando menos esperamos. E é também a cidade do Porto, evidentemente, sempre tem sido desde os fenícios, ou não? E nesse tempo também devia haver por aí uns caixotes que chegavam cheios de coisas.
Concordo com tudo menos com a parte do símbolo. Não foi para reivindicar a carga simbólica do terreiro que escrevi este artigo. Talvez mais para um silêncio entre dois barulhos, um intervalo (quando se vai de um barulho para outro). Mas seja como for, a praça do comérico tal como está agora, tirando os carros, não está muito mal. Não me desagrada aquele pavimento cru que tem agora. Está a viver a tal falta de projecto.
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