“A Europa é um cinzeiro”

Disse há uns anos o Sequeira Costa, um dos mais consagrados pianistas portugueses vivos, numa entrevista. Mestre de várias gerações de pianistas, donde se destaca Artur Pizarro, Sequeira Costa é conhecido também por ter um discurso irónico e mordaz e citado nos vários aforismos, imortalizados pelos que o admiram.

Hoje, na Fundação Calouste Gulbenkian, por uma conjuntura de acaso, rara nos meus últimos anos, pude dar um saltinho ao fim da tarde para o ouvir tocar a Suite Bergamasque, de Debussy.

Conhecia-lhe uma gravação pirata com alguns anos. Aristocrática, com uma classe difícil de encontrar seja em quem for.

Hoje confirmei a impressão. Os meios técnicos já não são os mesmo de antes, Sequeira tem perto de 80 anos, mas continuo sem conseguir ouvir outra versão da Suite que me encante tanto como esta. Sublime, o som. Uma gestão perfeita do tempo, das tensões do texto. Uma magia que se sente mas nos ultrapassa.

Palavras inúteis. A música é indizível. Quem não ouviu não sabe o que perdeu.

Mas regressar aos concertos do Grande Auditório da FCG acabou por me deixar mal impressionado. A média de idades da plateia aumentou assustadoramente. Vi poucos, muito poucos alunos de música. Vi sobretudo aquele público que não aprecia por aí além o que vai ver, mas gosta do social.

Não houve silêncio durante o concerto. As pessoas parecem já não saber o que é o silêncio, parecem já não saber o que é ouvir um concerto destes. Mexem-se, reviram-se, tossem, conversam. Talvez seja de nos habituarmos demasiado a ouvir CDs em casa, a ver concertos na televisão, e deixarmos de dar importância ao momento único e irrepetível de criação que está a acontecer no palco. Foram pérolas a porcos. Que pena.

Comments

3 Responses to ““A Europa é um cinzeiro””
  1. MrSteed says:

    Ah ganda Maria João! A chamar os bois pelos nomes! Pelo que sei – de fontes geralmente mal informadas mas que disto até percebem – a Fundação não escapa à regra nacional e é mal gerida. Já ninguém se lembra do bailado pois não? :p

  2. MJoao says:

    Oh Tiago! Estava na Gulbenkian, reparou? Naquela sala de concertos que há muito tempo deixou de ser entusiasmante… Não que a música que lá se faz não seja excelente – é-o na maior parte das vezes – mas o público "sobrou" dos idos dos anos 70 e o tipo de programação não é muito mais novo. Durante anos frequentei a dita sala, cheguei a ter assinatura… Agora, deixei. E deixei de lá ir. Estou farta de ver aquele público não respeitar a música que ali se faz, de ver bons nomes com salas que deveriam estar cheias e que não estão porque os senhores das assinaturas faltaram e não passaram os bilhetes, sem deixar que mais (nova) gente assista. De ouvir o papelinho do rebuçado, o toque do telemóvel, a tia surda a dizer mal da cantora em voz alta à vizinha do lado porque está surda e já não ouve nada… Farta de ver gente que devia saber estar dentro de uma sala de concertos e que pensa que está de visita à amiga para um cházinho e torradas.

  3. MJoao says:

    A verdade é que a Fundação se "acomodou" nos habitués e pouco faz para mudar o estado de coisas. Divulga a temporada no início de cada uma e o peso das assinaturas de há 20/30 anos é tão grande que não se procupa em captar novos públicos. Vende aquele X de bilhetes e está feito… Os programas são bons mas convencionais e não existe um esforço de dinamização. Assim o departamento responsável pelos concertos seguisse o exemplo do responsável pelas exposições da mesmíssima Fundação!
    Não viu estudantes de música? Pois não. À hora dos concertos, muitos deles ainda estão em aulas. E se há em Lisboa muitos e interessados (e interessantes!) estudantes de música…
    É uma pena, é, concordo!

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