O Bairro feito por quem o habita
15 June, 2009 by Tiago Figueiredo
O Viver na Alta de Lisboa propôs um projecto de intervenção urbana e social ao Grupo Comunitário da Alta de Lisboa (GCAL) - composto de dezenas de Instituições, Associações e Entidades que operam no Bairro – na sequência e desenvolvimento de um post publicado em Abril.

A ideia é simples e tem por base um diagnóstico empírico que qualquer um de nós faz sobre a Alta de Lisboa:
Existe no bairro uma população infantil e adolescente com grande absentismo escolar, ausência de expectativas profissionais e pessoais, tempo de sobra durante o dia e poucas ocupações construtivas, uma ligação ao bairro frustrada/revoltada fruto de um processo de realojamento imposto e pouco satisfatório.
Independentemente dos n juizos de valor que qualquer um de nós possa fazer sobre isto, a situação é mais ou menos esta.
Problemas resultantes desta desocupação, vazio e frustração: vandalismo, droga, marginalidade.
O vandalismo é expresso de variadas formas, mas as mais frequentes são as tags, os grafittis (sempre de péssima qualidade aqui na Alta), e a destruição de bens.
A ideia era então desenvolver um projecto que envolvesse toda a comunidade para intervir no Bairro com:
- acções de pintura em locais previamente escolhidos supervisionadas por artistas plásticos convidados
- acções de limpeza e remoção de grafittis e tags abusivos
- recuperação/reconstrução de espaços públicos vandalizados

A proposta resume-se nisto:
QUEM?
Grupos de moradores do bairro (grupos preferencialmente heterogéneos nas classes sociais, idades e géneros), supervisionados, em acções mais complexas, por técnicos especialistas competentes.
O QUÊ?
Intervir no espaço público com acções de pintura de murais, aplicação de painéis de azulejos, limpeza de grafittis e tags, recuperação de jardins e espaços públicos, construção de equipamentos lúdicos para jovens, segundo um código de ética definido entre todos, envolvendo as escolas do bairro, Associações de Moradores, Associações desportivas e condomínios.
QUANDO?
A partir do próximo ano lectivo, em Setembro de 2009 – para poder envolver desde o início a comunidade escolar.
PORQUÊ?
Uma acção destas pode dar aos jovens uma noção diferente da sensação de canalizar a energia para actividades construtivas, que envolvam preparação, organização, objectivos de médio e longo prazo, e conclusão visível (o mural, o painel de azulejos, a limpeza feita, a reabilitação de uma espaço destruído e marginalizado).
A heterogeneidade dos grupos pode ajudar a estabelecer ligações mais fáceis entre grupos que normalmente estão isolados, esbatendo as distâncias, medos e preconceitos, alargando horizontes. Classes sociais que não se misturam e se desconfiam mutuamente, jovens e idosos que não se compreendem pela distância do fosso geracional, raças que se hostilizam por preconceito.
As regras curtas e claras, criadas pelos próprios grupos de intervenção, uma espécie de Código de Ética na intervenção do espaço público, melhorando o juizo estético da arte, aprendendo a respeitar os locais que devem estar imaculados e quais os locais de abandono urbano que justificam uma intervenção artística que o enriqueça, pode deixar modelos comportamentais para o futuro.
Em suma, o objectivo é criar laços mais fortes entre as pessoas do bairro, das pessoas com o próprio bairro, e deixar na consciência de todos que um trabalho feito por todos, num espaço que é de todos, deve ser respeitado e diferenciado de um acto de vandalismo isolado e individual. Criar na população um verdadeiro sentimento de pertença, expressão tantas vezes usada de cor, mas sem aplicação prática.
Acabar com a sensação do “eles” e “nós” – seja entre munícipe e CML e SGAL, seja entre classes sociais, seja entre grupos hostis – diminuir o sentimento de impotência perante a contínua degradação e vandalização do espaço público e bens privados.
COMO?
Esta acção só poderá ter sucesso com o envolvimento de todas as instituições, entidades, escolas e associações do bairro, na medida específica das suas valências e capacidades.
A metodologia de implementação do projecto deverá passar pelos seguintes passos:
- inventariar locais no bairro a intervir (locais a limpar, locais onde faz sentido pintar um mural, aplicar um painel de azulejos, ou reabilitar do vandalismo)
- Divulgar a ideia nas comunidades escolares (professores, alunos e famílias) , nas entidades que trabalham directamente com os jovens do bairro, nas Associações de Moradores, nos blogs. (Nas escolas e grupos de jovens seria benéfico envolvê-los desde o início, para que acompanhem todo o processo, desde a inventariação dos locais, os contactos com CML, SGAL, e artistas plásticos, para que percebam que trabalho envolve e quão importantes são em todo o processo.)
- Garantir que entidades como a CML e SGAL, e empresas de construção civil a trabalhar no terreno, se associam à ideia patrocinando os materiais.
- Procurar envolver artistas plásticos de renome que desenhem murais, painéis de azulejos ou grafittis a sério. Trazê-los à Alta, envolvê-los num dia onde explicarão aos jovens e a todos os interessados um pouco do seu trabalho.

O tema dos graffitis é controverso, há muita gente que detesta, mas muitos dos próprios criadores respeitam na sua actividade regras éticas de conduta, intervindo apenas em locais devolutos ou inóspitos. Se na elaboração das regras de intervenção com os jovens conseguir-se definir que apenas se pode fazer grafitti em locais desolados, os chamados “vazios urbanos”, talvez se possa incluir mais esta forma de expressão que está tão próxima dos nossos adolescentes. Banksy é um bom exemplo desta prática.
Há algumas ideias a ter em mente para o sucesso deste projecto:
- É fundamental pensar em pequenas acções, de curto prazo, fáceis de projectar, implementar e concluir. Interessa dar sensação de sucesso em cada projecto. Interessa mudar comportamentos, e isto só se consegue pela repetição. Os processos têm por isso de ser de curta duração. As repetições devem ser rápidas e pouco espaçadas no tempo.
- Uma acção grandiosa, que envolva todo o bairro, pode ser o culminar de milhares de pequenas acções de reabilitação e intervenção, mas sem essa base de centenas de intervenções prévias acabará por ser ineficaz e falha nos objectivos sociais e pedagógicos de longo prazo a que se propõe.
- O primeiro espaço a intervencionar deverá ser o espaço público, confluente de todas as populações, comum, sem estigmas, sem fronteiras ou características territoriais. Os Parques, jardins infantis, são por isso os melhores locais para começar.

Depois de apresentada esta ideia no GCAL, foram diversas as Instituições, Associações e Entidades que quiseram aderir. Os trabalhos começarão no próximo ano lectivo e serão acompanhados de perto em reportagens no Viver.
- ARAL (Associação de Residentes do Alto do Lumiar)
- Escola EB1 nº91 – Bairro da Cruz Vermelha
- Centro de Acolhimento Infantil do Bº da Cruz Vermelha
- Centro de Saúde do Lumiar
- Centro Social da Musgueira
- GEBALIS – EM
- ISU (Instituto de Solidariedade e Cooperação Universitária)
- Lions Clube Lisboa Centro
- OMEP (Organização Mundial de Educação Pré-Escolar)
- Polícia Municipal de Lisboa
- Santa Casa da Misericórdia Lisboa
- UPAL – CML (Unidade de Projecto do Alto do Lumiar)
- Viver na Alta de Lisboa
A adesão de moradores é importante e será muito bem-vinda.





É importante a participação de todos. Conta com mais um.
Eu quero fazer parte deste projecto!
Óptima ideia e metodologia de implementação consistente.
Parabéns, Tiago, por este post.
Obrigada, Viver, pelo trabalho que está por trás desta publicação!
Obrigado Henrique, obrigado Luísa.
Temos entretanto mais uma entidade que se juntou ao projecto: o Centro de Acolhimento Infantil do Bº da Cruz Vermelha.
Contem comigo, excelente iniciativa!
Parabéns pela excelente ideia! Podem contar comigo.
comigo também e posso apoiar nas intervenções do espaço exterior
esta excelente ideia tem muitas pernas para andar e poderemos mesmo protocolar intervenções com a CML
postei no arvoresdaminharua.blogspot.com em 4 de maio de 2008 o enquadramento legal que nos permitirá isso
querem marcar qualquer coisa? no próximo dia 4 de julho, sábado, ás 15h temos na escola 34 uma reunião com o grupo das hortas; podia ser um bocadinho antes (tipo 14 h) ou depois (tipo 17h)?
Olá Jorge,
esse enquadramento legal é interessante e irei publicá-lo no Viver em complemento a este projecto. No entanto, uma das grandes vantagens da ideia ter sido apresentada no GCAL foi a adesão da GEBALIS, da Polícia Municipal e da UPAL, todos departamentos ou empresas da CML. Isto agilizará e facilitará o que fôr necessário resolver com outros serviços.
Quanto ao encontro que propõe, não posso ainda responder-lhe. Estaremos nessa altura no 3º dia do CineConchas (para o qual convido a assistir) e não sei como estarei de disponibilidade. Se me enviar por email o seu contacto telefónico poderemos também conversar antes.
Mas uma reunião (curta e concisa, sim) e alguns mailings serão feitos para todos os que se mostraram interessados. Como disse, o projecto arrancará em Setembro, dado isto fazer muito mais sentido com o envolvimento das escolas, mas pode-se ir treimamdo durante as férias com pequenas intervenções.
O importante mesmo é que a intervenções sejam sobretudo exteriores, ou seja viradas para a rua, para que possam "contagiar" a comunidade, visando o espaço público. E, claro, é importante que os grupos de acção sejam heterogéneos para dissipar bloqueios relacionais.
Viva! Só tenho a felicitar a iniciativa e trabalho aqui efectuados.
Este era um assunto sob o qual já tinha feito uma reflexão onde verifiquei que os espaços envolventes deveriam ser mais dignos de quem os habita. Concordo com o projecto e espero que o mesmo possa contribuir para a melhoria de atitudes cívicas e pedagógicas, de modo a construirmos uma Alta de Lisboa onde todos gostem de viver!
Este é o 1º post que faço neste site e é com elevada satisfação que me proponho a colaborar.
Contem comigo!
Olá,
Eu sei que já vem tarde este comentário, mas apenas agora tomei conhecimento do blog!
Queria só comentar:
«grande absentismo escolar, ausência de expectativas profissionais e pessoais, tempo de sobra durante o dia e poucas ocupações construtivas, uma ligação ao bairro frustrada/revoltada fruto de um processo de realojamento imposto e pouco satisfatório. Problemas resultantes desta desocupação, vazio e frustração: vandalismo, droga, marginalidade.»
Em Telheiras há provavelmente uma das maiores concentrações nacionais de elevada escolaridade, pessoas de classe média, média-alta, que não foram realojadas e que ainda assim se dedicam a inundar o bairro de graffiti e tags. E são jovens "normais", não são os habitueés "marginais". E com a droga a mesma coisa!
Talvez as bases sociais não influenciem tanto quanto se pensa este tipo de situações.
Filipe Matos
Tens razão, Filipe. Não existe relação de uma coisa com outra. Obrigado.
Já agora, queria dizer que estive aqui a ver os vossos posts durante a tarde, e acho espectacular
parabéns!