O nosso 25 de Abril
25 April, 2009 by Viver Lisboa
Decidimos fazer um post conjunto sobre o que representou o 25 de Abril para cada um de nós. Recordações desse dia, lugares, cheiros, sons. Os que já eram nascidos e que o viveram lembram-se das coisas, os que chegaram depois de 74 têm talvez uma consciência colectiva gravada no ADN, a memória do que lhes contam, do que viram na televisão.
A ideia desta proposta chegou em cima da hora e muitos de nós acabaram por não conseguir dar o seu contributo. Uns porque não puderam mesmo, com pena. Outros porque não lhes puxou para isso. Ser livre é isto mesmo. Escrever ou não escrever, por opção.
Ana Barata

COM O NARIZ COLADO À JANELA
O meu irmão diz que eu tenho memória de elefante, que sou daquelas que me lembro de ter nascido. Não me lembro. Mas ainda hoje evoco com muita clareza aquele dia.
Tinha 3 anos, a caminho dos 4.
Morávamos na Estrada de Benfica, junto a Sete-Rios. Quase, quase em frente à porta do Jardim Zoológico. O Jardim Jaleco era a nossa segunda casa, para onde íamos todas as tardes com a minha avó e às vezes com a minha mãe. Dessas tardes recordo os lanches e as brincadeiras, os amigos, os vizinhos, os bichos, as corridas e tropelias… e sobretudo, o desgaste da minha avó na tentativa de refrear a minha energia. Arrapazada, eu trepava árvores e saltava muros, corria muito e era a última a sair dos baloiços. Aproveitava com sofreguidão aquela largueza de espaço seguro, aquela soltura de uma criança conhecida e acarinhada por todos e que ali podia andar à vontade.
As janelas da minha casa tinham vista para o Jardim. Durante anos, cumprimentei os camelos e os búfalos logo pela manhã, via as girafas e até conseguia ouvir o rugido dos leões. A rua era animada e movimentada. Tinha muito comércio. Pequenos estabelecimentos de bairro onde todos se conheciam e afagavam com simpáticos “bons dias”. Da retrosaria ao sapateiro, da taberna ao restaurante, da papelaria, da joalharia, da casa dos frangos, da casa dos móveis, da Riviera, do Panchito, e do “lugar” onde se vendia um pouco de tudo… guardo as melhores recordações de conversas de vizinhos. Sempre tão ricas e sempre tão únicas.
Na Estrada de Benfica passava o eléctrico. Não me lembro do destino, mas ainda hoje consigo ouvir o canto daquela engrenagem. Passavam também o 15 e o 46 da Carris, que chegavam ao Cais do Sodré e ao Rossio. Já havia metro e a estação de Sete-Rios.
Ao fundo da minha rua, a chegar a Sete-Rios e onde o gradeamento do Jardim Zoológico dobra a esquina, erguia-se altivo um grande casarão. Ninguém sabia muito bem o que lá se passava. Para mim e para o meu irmão, era uma casa grande, misteriosa, o cenário perfeito para brincadeiras de casa assombrada. Soube mais tarde que era a Escola de Instrução da PIDE. Hoje sei que o camartelo já lhe tirou o assombro.
No dia 25 de Abril de 1974 acordámos com um canhão de um tanque apontado à janela. Estacionado no meio da rua à porta do meu prédio, o carro de combate cortava o trânsito e mantinha uma vigilância atenta. Mais à frente havia outro em Sete-Rios, e outro ainda na Rua das Furnas. A rua tinha emudecido. Não havia eléctrico, autocarros, carros, vizinhos ou pessoas. A telefonia sintonizava um posto qualquer. A ordem era de cautela e de recato no lar. O meu nariz continuava a embaciar o vidro da janela do 1º andar, apesar do medo avisado da minha mãe. Aquele canhão…
Nesse dia o meu pai não foi trabalhar, mas saiu de casa. O que estava a acontecer mudaria a vida de todos para sempre. Ninguém sabia ao certo o que viria, mas era demasiado importante para não ser presenciado.
Dos dias que se seguiram, recordo a ocupação da Escola da PIDE, a festa, a algazarra da rua com os tanques e os militares e de andar orgulhosamente sentada em cima dos ombros do meu pai.
Nos anos que se seguiram, cresci com o espírito e o significado daquele dia e na Liberdade que aquele dia me deu.
Tinha 3 anos, a caminho dos 4.
O meu irmão brinca e desconfia até hoje. Temos apenas um ano de diferença um do outro. Um cirúrgico ano e dez dias. Ele não tem memória disto. Oiço dizer que as primeiras recordações de uma criança remontam aos 3 anos de idade. Deve ser verdade e estas devem ter sido as minhas primeiras. Lucky me!
Ana Estevens

Num imaginário tão real
Quando nasci o dia 25 de Abril de 1974 já tinha acontecido há uns anos. No entanto, tenho um sentimento estranho relativamente ao meu nascimento: gostava de ter nascido antes para ter vivido esse dia. Anos mais tarde, podia ter nascido mesmo no dia 25 mas nem isso, aconteceu um dia depois. Gostava de ter sentido tudo aquilo que me contam. Tudo aquilo que me faz sentir tão bem e que me deixa sempre os olhos cheios de lágrimas.
Desde pequena que ouço histórias familiares sobre a repressão, sobre o não se poder falar, sobre o não se poder apenas conversar com um amigo na rua, sobre a distribuição de panfletos e sobre os amigos que foram presos ou tiveram de ‘fugir’ do país. Histórias que me fascinam e arrepiam ao mesmo tempo. Fico fascinada com a coragem daqueles que perante tanta adversidade se conseguiam movimentar, lutando por melhores condições sociais e económicas, lutanto pela mudança. Fico arrepiada também com a coragem daqueles que não eram apenas indivíduos singulares mas que eram indivíduos que lutavam pelo colectivo. Eram indivíduos que lidavam com o seu medo e com a provável hipótese de serem presos e torturados mas mesmo assim lutavam!
Perante todas as conquistas de Abril, a actual ‘quase’ apatia deixa-me incrédula. Alguns dirão que é apenas mais uma das minhas utopias de querer mudar o mundo de algum modo mas a verdade é que fico chocada com as atrocidades que se comentem sem que ninguém diga ou faça nada. Atrocidades que vão contra todos os direitos conquistados. Diante da coragem que tantos tiveram como é que agora não se faz nada e se perdem direitos? É incompreensível para mim o facto de as pessoas se acomodarem a um individualismo total. Tendo nascido em ‘liberdade’ sinto muitas vezes que ainda há muitas pessoas e muitas coisas para serem ‘libertadas’.
Ao som de músicas e poesias fui crescendo. Descendo todos os anos a Avenida, tenho comemorado a liberdade de cravo na mão, com o desejo que as minhas utopias se tornem também um dia Abril!
Viva o 25 de Abril!
Graça Índias Cordeiro

Vivi intensamente o 25 de Abril e as memórias que guardo comigo têm o sabor intacto da emoção do desconhecido que, nesse dia cinzento, senti. Eu tinha 13 anos mas já andava envolvida na luta anti-fascista, o que me valia ter um processo disciplinar em curso no liceu Rainha D. Leonor, e a ameaça de expulsão pelo crime de “falta de decoro ao liceu” devido ao facto de ter sido presa no dia 16 de Dezembro de 1973, numa reunião de estudantes do ensino secundário no Hospital de Santa Maria.
O meu quotidiano oscilava entre a revolta moldada pelos romances de Máximo Gorki , Jorge Amado, Che Guevara, entre outros, que me alimentavam a imaginação, e o imenso medo de ser apanhada a transportar e distribuir panfletos, o medo das escutas telefónicas que me faziam falar em código, o medo de que a PIDE invadisse a minha casa, de que os meus irmãos fossem novamente presos, depois de já terem passado por Caxias.
Na noite do dia 24 tinha estado no Coliseu a ver uma ópera – a Traviata, penso – e no regresso a casa, de carro, cruzámo-nos com imensos ‘níveas’, ou seja, carrinhas de polícia, num movimento pouco habitual. Acordámos de madrugada com um telefonema de uma amiga que vivia na Bélgica, a dar a notícia, e o alvoroço instalou-se nesse dia único, em que se pedia pela rádio para as pessoas se manterem em casa.
À tarde andámos de carro, com o meu pai, a percorrer a cidade. Fiz algumas fotografias, que guardo em parte incerta. Lembro-me de um grupo de polícias na Av. Da Igreja, com um ar desamparado; de um soldado a comer uma banana num momento de descanso, de pessoas a circularem ou empoleiradas em muros, a olhar, à espera, numa expectativa que ainda não se sabia bem o que traria…
Era tudo um pouco irreal, ainda não se sabia o que iria acontecer, a festa veio depois, nos dias que se seguiram: a saída dos presos políticos de Caxias com os olhos cheios de lágrimas presos na televisão, o primeiro 1º de Maio, dia de sol radioso, grandioso, com água a ser oferecida pelas janelas e portas abertas dos prédios por onde passávamos, uma multidão como eu nunca vira, o explodir da festa e da alegria a chegar ao Inatel, os comícios improvisados no Rossio, as manifestações contra a Guerra Colonial, a longa vigília nocturna pela libertação do capitão Peralta, na Estrela, a descoberta de toda uma cidade a desabrochar, das ruas de Lisboa cheias de movimento e alegria, de uma vida subitamente diferente!
Também a descoberta da organização política, antes clandestina, que enquadrara o tal ‘grupo de estudantes’ de que eu fazia parte, afinal LCI e a sua sede da rua da Quintinha, o imenso orgulho de desfilar na primeira fila das manifestações a empunhar a bandeira da 4ª Internacional…
Foi o princípio de uma mudança inesquecível, de uma adolescência que teve a sorte, a felicidade de passar por estes anos!
Henrique Relógio
Em 25 de Abril de 1974, não era nascido, não estava sequer perto e suspeito que nem tão pouco pensado, pois apenas viria a nascer cerca de três anos depois.
Dito isto, o que posso dizer mais sobre o 25 de Abril de 1974?
Pouco ou nada, dirão e com toda a razão.
Por isso mesmo não pretendo falar sobre o que foi, porque para isso haverá gente muito mais habilitada (os ditos especialistas, a repetir os chavões do costume), mas sim a minha leitura do que pode ser, e essa, atento leitor, depende também de si.
Se me atrevo a escrever é por entender que o desafio lançado para este post representa, ele próprio, a essência do 25 de Abril de 1974, por apelar à participação e mobilização colectiva e à diversidade de opiniões.
Gosto de pensar que o 25 de Abril marcou, não o fim de um regime, porque esses já sabemos que são cíclicos e fruto de conjunturas, mas sim o fim de uma forma de estar e mentalidade. E isso, sabemos bem que demora muito mais tempo. Gosto de acreditar que marcou o princípio do fim dos valores tantas vezes estereotipados do português ora coitadinho ora chico, que é como quem diz ora besta ora bestial.
Pode não ter sido rápido,
Pode não ter sido fácil,
Pode não ter sido consciente,
Mas gosto de pensar que somos mais tolerantes às falhas do outro (afinal também ele humano como nós),
Gosto de pensar que estamos a mudar a nossa forma de estar em comunidade (sendo este blog, e tantos outros como este, disso mesmo um exemplo) em que a proactividade e entreajuda tende a ganhar espaço à inércia.
Gosto de acreditar que acreditamos mais em nós e confiamos mais no próximo: e esse é tão somente o primeiro passo para que o céu seja o limite.
Neste aniversário do 25 de Abril, deixo o desafio para todos, começando pelo atento leitor: sejamos mais interventivos na comunidade em que residimos e assim contribuamos para marcar a diferença e dar expressão ao valor adquirido da liberdade!
Joana Fialho

Poderia ter sido o meu primeiro amigo imaginário. A criança esticada sobre uma espingarda com uma flor na mão. Os caracóis loiros e a blusa amarela, o vermelho da flor, um cravo afinal.
É que o menino do cravo sempre me fez companhia. Um poster pendurado na parede do meu quarto muito antes de eu puder perceber o que significava abril, espingardas ou cravos, liberdade ou a ausência dela. Lembro-me dele lá desde sempre e por lá ficou muitos anos, com os seus calções esfarrapados e os pés descalços.
A amizade com a criança na parede estava sempre carregada de perguntas, de quem são os braços que seguram na espingarda, porque tem de ser a criança a pôr lá a flor, que flor é esta, e poque é que uma espingarda precisa de uma flor. Uma imagem tão clara para um adulto e tão misteriosa para uma criança mais pequena ou do mesmo tamanho do menino do cravo.
A fotografia de Sérgio Guimarães terá sempre um lugar especial nas minhas recordações de infância.
Joana Jordão

Eu ainda não era nascida no 25 de Abril. Os meus pais não estavam em Portugal no 25 de Abril. Este dia de 1974 não é, sequer, uma memória construída para mim. É textos nos livros de história da escola, alguns documentários, e relatos de pais de amigos e amigas, a maioria fora de Lisboa. Sinto-o como uma lacuna, como se as circunstâncias me tivessem roubado de algo. Quando era adolescente entristecia-me imenso não ter estado presente no mundo para nenhum acontecimento histórico. Como se tivesse nascido fora de época. A minha coroa de glória era ter um dia no modesto 11 de Março de 1975. As minhas primas contavam-me a visita à maternidade para me verem e os helicópteros por todo o lado. Li o que aparecia sobre o tema e todos os anos esperava ansiosamente o telejornal desse dia. A maioria das vezes passava sem ser mencionado e raramete vi qualquer imagem de arquivo sobre o assunto. Mais tarde caiu o muro de Berlim, quando eu tinha 14 anos. Acabou-se a RFA e a RDA e senti que o universo se redimia e me proporcionava histórias de “como era dantes” para contar aos meus filhos.
Mas voltando ao 25 de Abril… Depois do de ’74 estive presente em todos os outros. Lembro-me de haver de vez em quando um dia no Jardim Municipal e Parque Infantil de Évora, onde passava muito tempo com os meus avós, que era verdadeiramente memorável: um dia inteiro a fazer desenhos, pinturas, barro, brincadeiras organizadas, uma festa! Soube já adulta que, afinal, eram as comemorações do 25 de Abril. Afinal era só uma vez por ano. Foi uma infância pouco politizada. Da época lembro-me também de ter uma bicicleta vermelha onde andava na rua dos meus avós que eu forrara de alto abaixo com autocolantes da APU. Acho que as argolas me lembravam os Jogos Olímpicos, ou melhor o Misha, a mascote de 1980 em Moscovo. Mas por essa razão “eu era da APU” e ficava muito irritada quando ouvia a lenga-lenga “APU mete o dedo no cú”. E também gostava muito do Ramalho Eanes. Porque Eanes era o nome do melhor amigo do Sandokan.
Foram assim o meu 25 de Abril e o meu PREC.
João Ramos de Almeida

25 de Abril
Devo confessar que não tenho muitas memórias dos primeiros dias a seguir ao 25 de Abril.
É estranho, mas é verdade.
É estranho porque uns anos antes de tudo, quando tinha uns 11 anos, já sabia que iria desertar da guerra colonial porque “não queria ficar sem uma perna”.
Com os meus 12-13 anos, andava já com pessoas que estavam contra o regime e que se organizavam para fazer alguma coisa. Lembro-me de reuniões intermináveis, turvas de fumo, em que se discutia desde o que era o socialismo até à inflação, em salas com as portadas fechadas e com uma almofada sobre o telefone para evitar as escutas da PIDE.
Ainda mais estranho porque ia a livrarias da Oposição, comprar livros de Marx e Lenine, postais com o Allende e pombas da paz por causa da guerra. E até cheguei a oferecer-me para distribuir comunicados da CDE antes do 25 de Abril. Foram poucos. Mal tinha começado a distribui-los, eu e um colega do liceu tivemos de fugir de uns tipos de gabardine até os despistar. Um pavor horrível.
Já não falando de muitas outras memórias que faziam da palavra “regime” algo verdadeiramente pesado, a preto e branco, sob a suspeita permanente de alguém ao lado estar a ouvir o que se dizia. Parecia que era sempre inverno. Um tom pardo, húmido, tão denso como a canção do José Mário Branco “E companheiro” que me lembro de ouvir então na rádio – então, antes do 25 de Abril. Foi assim que ficou na memória.
Pois, de tudo isso, por que razão o 25 de Abril se eclipsou da minha memória?
Não me ficou nenhuma daquelas imagens de ruas apinhadas, manifestações espontâneas. Nem uma rua que me tivesse marcado mais. Tinha 14 anos na altura e lembro-me que nesses dias me inscrevi logo num dos partidos políticos. Portanto, devo ter andado às voltas, mas apagou-se.
Mais poderosa é a imagem que ficou do 1º de Maio. Houve uma enorme concentração de pessoas na Praça do Areeiro. A memória é enganadora e parece que guardo a ideia de estarmos aos pés daqueles prédios datados de uma época que se queria passada. Hoje olhando para eles, até consigo ver a elegância de algumas linhas e da inovação que foi na altura a construção e abertura das avenidas novas. E que tudo até fazia sentido, com aquele vermelho todo a correr nas ruas.

Era muita gente mesmo. Tudo muito feliz. Muito colorido. Fazia um sol esplêndido. Gritava-se tudo. Sem ordem, nem panfletos. Era o que se quisesse. Havia um que me fazia muito confusão – “Viva Portugal!” Era como se tivessemos sido libertados de uma potência estrangeira… quando tudo fora obra de portugueses…
Uma alegria, uma catarse de anos e anos. E fomos todos avenida Gago Coutinho abaixo, panos abertos, bandeiras vermelhas, a trocar emblemas que iam aparecendo. No cruzamento com a Estados Unidos virámos para cima e fomos passando pelos pacatos prédios da avenida, blocos paralelos. Muitas pessoas às janelas, a acenar, a gritar.
Até entrar para o estádio da então FNAT que ficaria, desde então, com o nome daquele dia.
Foi um dia incrível.
Nunca houve uma alegria assim.
João Vasco

Na Arte como na Revolução
A arte como sublime manifestação do espírito colectivo de uma espécie é algo que nos distingue e que nos eleva. A capacidade de criar, recriar, e acima de tudo de contemplar o belo, permite-nos o maior, mais fraterno e generoso abraço. É este abraço que nos liga, que nos mostra que vivemos, amamos e sofremos da mesma forma, que nos emociona e que nos faz seguir em frente. Escolhi abraçar pela música. Sou feliz por fazê-lo todos os dias, no palco ou na sala de aula. É também pela música que me sinto abraçado em cada 25/04. Não ouço só o Zeca, o Paulo de Carvalho, o Lopes Graça, o Fausto, o Adriano, o Sérgio Godinho ou o Carlos Paredes, ouço o grito, mais forte do que a mordaça, de um povo que abraçado se uniu e disse: chega, seremos mais fortes, a revolução chegará. E chegou, pela música. Só não sei se permanecerá…
Sei que no Viver faremos a nossa parte.
Joaquim Cunha
A propósito do 25 de Abril de 74 lembro-me sempre de uma frase conhecida de uma artista que muito admiro: “a poesia está na rua”.
Nasci em 75, em Lisboa. Sobre a revolução, os meus pais contaram-me como foram tempos especiais em que toda a gente falava com toda a gente, mesmo sem as pessoas se conhecerem.
Hoje estou aqui a dizer olá e a escrever para saborear esta possibilidade de cumprimentar muitas pessoas que não conheço.
Um grande abraço,
joaquimcc
Luísa Ferreira

Sou mais velha que vocês. O 25 de Abril aconteceu poucos meses depois de eu ter completado 18 anos.
Lembro-me mais ou menos bem desse dia, que começou antes das 7 da manhã, com um telefonema de uma colega: – não saias de casa que houve um golpe de Estado!!!!
Houve o quê??!!
Não estava a perceber muito bem o que se passava. A minha consciência política não ia muito além de saber que era perigoso ficar a conversar mais do que 15 minutos com uma ou duas pessoas numa qualquer esquina de Campo de Ourique (onde morei desde que nasci até Dezembro passado) e que amigos dos meus amigos, que já andavam na Faculdade, eram perseguidos e presos por não concordarem com o regime. Experiência própria, a mais arrojada que tinha, era ter fugido dos cães da polícia de choque (por tentar assistir a um qualquer concerto de rock que era suposto ter-se realizado no Estoril) e ter andado a distribuir folhetos “Vota MDP/CDE” pelas mesas dos cafés, em 73.
Mas se havia uma revolução em curso, não era em casa que eu ficar!
Saí para a rua mais depressa que o costume e foi na rua que passei grande parte do dia (indiferente à natural preocupação dos meus pais. Na altura não havia telemóveis….).
Vi soldados na Baixa, ouvi rajadas de metralhadora no Carmo e fotografei um helicóptero de uma das janelas do 2º piso do edifício dos Correios dos Restauradores, onde trabalhava desde que um valente chumbo numa disciplina do (antigo) 7ª ano me tinha adiado a entrada em Belas Artes.
Foi um dia memorável!
Mas, desse dia, o que ficou gravado na minha memória não foram tanto os factos a que assisti mas sim a emoção que pairava no ar. Uma grande alegria sim, mas uma alegria indefinida, contida, como se o medo ainda ali estivesse (e, pelo menos para mim, estava).
O que mais me comoveu? O que consigo reviver ainda hoje? – Foi aquilo que se senti ao ver a esperança espelhada no olhar das pessoas com quem me cruzei.
Luís Lucena
O 25 de Abril
O 25 de Abril tem muitos ângulos de vista. Depende de quem olha para ele e dos critérios de análise usados na sua abordagem. A compreensão do fenómeno passará pelo entendimento de todos os pontos de vista.
Uma análise possível é a cronológica, sendo possível distinguir 3 tempos sucessivos: o antes, o durante e o depois.
O Antes
Sucedendo a um António Salazar moribundo, o novo Presidente do Conselho Marcelo Caetano parecia querer impulsionar uma abertura do regime. Terá sido contrariado pelos mais conservadores e pela própria figura “fantasmagórica” do Salazar, já que este veio a falecer apenas dois anos após a posse Presidencial. A Marcelo ter-lhe-á faltado pulso, vontade ou saber, ou quiçá, o cinismo político necessário. Talvez até fosse demasiado civilizado para o seu tempo. Talvez ainda fosse mesmo matematicamente a impossível fazer o exercício de pôr um veículo em movimento após décadas de inacção e de falta de manutenção, passe a analogia.
Nesta dinâmica de Estado Novo já em queda, com um pouco de laxismo, já um pouco “permissiva”, sob essa nova tolerância da “Primavera Marcelista” – simbolizada pelo programa televisivo semanal “Conversas em Família” em que a Nação, (ironicamente como hoje) ouvia atentamente o Professor Marcelo – já as pessoas se iam expressando, manifestando-se aqui e ali, tudo com sinais de maior modernidade e abertura que então se viviam. Não se procura ignorar os que sofreram directamente as perseguições e torturados – esta é uma peça do puzzle da realidade então vivida que não pode ser esquecida; nem sequer o lápis azul tinha metido férias; todos os tiques do regime permaneciam; mas o ambiente estava menos tenso e o novo “líder espiritual” teve a sua influência.
O clima internacional caracterizava-se pela Guerra Fria e pelo isolamento nacional, viviam-se ainda as guerras coloniais, embora, com a excepção da Guiné, já dominadas e apaziguadas. O enquadramento era de um ambiente de forte expansão económica, com taxas de crescimento do PIB superiores a 7% (entre 1960 e 1973, 6,9% em média, que coram de vergonha e de inveja o regime que se sucedeu que, por seu lado, raramente o relembra). Culturalmente e em termos populares, viviam-se ainda os tempos dos Beatles, dos Beach Boys, do “peace and love”, do charro, do amor livre, dos cabelos compridos, da barba e bigode farfalhudos, das calças à boca de sino, dos sapatos com tacões. Ou seja, relativizando à época, estávamos em período de expansão, alguma descontracção, de um certo optimismo até (reforço o “relativizando à época”). Astrologicamente, muito Júpiter.
O Durante
O “Movimentos dos Capitães” surgiu “em Agosto de 1973 no seio das Forças Armadas e protagonizado pelos oficiais intermédios e subalternos que visava inicialmente a mera satisfação de reivindicações de carácter corporativo.” (in Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra). Trocado por miúdos, os miúdos dos capitães andavam amuados porque os meninos doutores e engenheiros, que não percebiam puto de guerra, se submetidos a curso intensivo, chegavam ao ultramar com as mesmas insígnias e as mesmas regalias (publicação do Decreto-Lei n.º 353/73, que possibilitava aos milicianos do Quadro Especial de Oficiais ultrapassarem os capitães do quadro permanente nas suas promoções, mediante a frequência de um curso intensivo na Academia Militar). Ora nem que se faça já uma revolução, isto não vai ficar assim! E foi por aqui que se começou…
É interessante verificar que os “ideais” de Abril começaram por ser de natureza corporativa. Mais uma vez se repete o Portugal corporativo. Só depois se juntaram os argumentos da autodeterminação dos povos e da liberdade. A verdade crua e dura não deixa de ser amarga.
E o povo veio para a rua e envolveu-se na pintura com cravos. Poucos tiros se trocaram; quando revolucionários e leais ao regime se confrontavam lá tínhamos uns “trinta e um de boca” do tipo “é pá é preciso ter calma pá” ou “camarada, não queremos derramamento de sangue”. A DGS (redenominação da PIDE) deu algum trabalho e foram mortos, a tiro, quatro manifestantes.
Depois chamaram-lhe revolução socialista. Como se o Povo entendesse o que estava a fazer e como se a sua vontade fosse essa. Na verdade foi tudo muito emotivo e muito pouco ideológico, racional ou filosófico.
O Depois
Devemos dividir este período em dois. Numa primeira fase, tivemos um processo militar e político de instabilidade que procurou a consolidação de um regime democrático em que o Partido Comunista ficasse espartilhado, impedido de uma acção hegemónica. A influência estrangeira era considerada inaceitável embora tivesse obviamente acontecido com amigos Europeus, Soviéticos e Americanos a moverem as suas influências, nomeadamente através de fundos financeiros (absolutamente proibidos). Logo tivemos a descolonização rápida e descontrolada apenas chumbada pelas potências locais em Timor e em Macau. Finalmente a desmilitarização do poder político, que foi exemplar.
Numa segunda fase temos o que podemos chamar de pos 25 de Abril: podemos e devemos ser capazes de ler o que decorreu nos trinta anos subsequentes.
Foram já 35 anos! É uma geração. Ou seja, o correspondente à idade de já se poder ser Pai ou Mãe em condições de alguma estabilidade económica e maturidade de vida. Fez-se um ciclo. É preciso fechá-lo com as devidas conclusões: Em Portugal, temos mais liberdade, não há qualquer dúvida. Muitas vezes acompanhada de uma certa irresponsabilidade. Por exemplo a “liberdade” do insulto. Ou a “liberdade” individualista sobrepondo-se às liberdades de outros. No outro lado do Mar, o custo da “autodeterminação” foi enorme. Há quem afirme não ter sido possível fazer de outro modo, pelo que (os mesmos) concluem que foi inevitável o fratricídio em Angola, Moçambique e Guiné.
Temos hoje mais infra-estruturas básicas – distribuição de água, luz, esgotos – com acesso generalizado por parte de toda a população; a habitação está razoavelmente resolvida. Não no outro lado do Mar.
Do lado de cá, ao fim destes 35 anos falamos e sentimos muitos défices. Os mais importantes talvez sejam o da Justiça – que tarda em ser posta a funcionar –, o da Educação – a do princípios, do respeito pelos outros – e o da Educação – seja académica, seja na formação técnica ou na preparação profissional. Mantemos ainda um excedente de fadismo, de inércia, de zappingismo, de treinador de bancada, de desrespeito pelo Tempo, de desrespeito pelo compromisso assumido, de falta de cavalheirismo, de acomodação. Envolve uma espécie de corrupção ao nível do conforto material e uma outra ao nível da falta de estímulo e de castigo.
O meu testemunho do 25 de Abril
Já vou nos entas. Significa que quando se deu, já por cá andava. Mais precisamente, andava na 1ª Classe. E foi dia não ir à Escola; já vestido de bata branca a minha Mãe disse-me que não era permitido sair de casa, que era perigoso. Outra memória que tenho é a de que nos tempos que se seguiram, manifestações de rua tomaram uma forma absolutamente fantástica. A paixão e a esperança eram uma coisa enorme. Muita mas mesmo muita gente nas ruas com bandeiras e bandeiras. As eleições tinham campanhas extraordinárias de gente na rua. Lembro-me ainda que a dada altura não se podia ser do CDS ou mesmo do PSD. O mais à direita que se podia ir era PS. Para uns, alguém que fosse PSD ou CDS era sinónimo de fascista, a abater, claro. Para outros, para ser-se por exemplo Comunista, vulgo “Comuna” era sinónimo de “perversão”, “demoníaco”, perigo e rejeição total. Isto era uma realidade dos nossos Pais e uma realidade juvenil. Verdadeiras guerras psicológicas. Outras memórias: o enjoo daquela musiquinha que passava vezes e vezes sem conta na televisão “Uma gaivota voava voava asas de vento coração de mar; como ela somos livres, somos livres de voar…“. Era a toda a hora. Era mesmo um enjoo enorme, queria lá eu saber da mensagem propagandista ou progressista. Vá lá vão ao link e revivam!
A produção musical é sofrível… quer dizer, sofre-se bué com ela.
Luis Magalhães
O meu 25 de Abril deu-se aqui na Alta…
Mas não foi em ’74, nem em Abril e ainda não era Alta.
Foi em Outubro de 1989, quando troquei, por iniciativa própria, um colégio privado perto de Odivelas pela Escola Secundária do Lumiar N.º2, actualmente a EB 2-3 D. José I. Sim, a que ainda existe junto ao Bairro da Cruz Vermelha, na Av. Carlos Paredes.
Fiquei no 9º B, uma turma fantástica, na qual, eu com os 14 anos regulamentares, era o mais novo.
Porquê o meu 25 de Abril?
Porque foi o encontro com a realidade. Convivi com pessoas de todas as origens, que enriqueceram a minha vivência, que me proporcionaram uma visão muito mais abrangente e humana da sociedade portuguesa.
Sem dúvida este lugar foi decisivo para a minha Liberdade intelectual.
Por isto defendo uma Escola Pública plural, acolhedora, integradora.
Nunca mais voltei ao ensino privado. O meu percurso académico não ficou prejudicado por esta decisão, antes abriu-me os horizontes.
Mais importante que tudo, o sítio marcou-me para toda a vida, pois foi nesta escola que conheci a minha mulher, a minha companheira de sempre.
Mais um prenúncio da ligação à Alta, agora como residente.

35 anos depois da revolução e 20 depois do meu 9ºB…
…no âmbito da intenção de tornar obrigatório o ensino até ao 12º ano, a jornalista Graça Barbosa Ribeiro, do Público, recolheu junto de adolescentes, comentários como estes:
“Obrigatório?! O 12.º ano? Não é verdade!!!”.
“E o que é que tem? Na booooa! Para o ano vou para Montemor e em dois anos faço um curso de informática que me dá o 9.º ano. Mais um ano de outro curso qualquer e dão-me o 12.º”
“Há muita gente com cursos da universidade sem trabalho”
“O Governo não ganha nada em manter as pessoas na escola contra a sua vontade. Nem aprendem nem fazem o que querem e com 16, 17 e 18 anos, já têm o direito de decidir o que querem fazer da vida”
Com 35 anos de democratização de acesso ao ensino, estes comentários demonstram bem a incapacidade, da nossa escola e das famílias, de motivar e preparar os jovens para a “sociedade do conhecimento”.
35 anos depois, aflige-me o elevado abandono e insucesso escolar, num país onde o “capital cultural” continua a ser o grande diferenciador socio-económico.
Marta Santos

Lembrar Abril
O dia 25 de Abril sempre me emocionou muito. Dantes, porque era uma festa. Era dia de descer a Avenida da Liberdade às cavalitas do meu pai, de tentar acompanhar o “Grândola, Vila Morena” e outras músicas, que se ouviam por todo o lado e que ainda hoje sei de cor. Gritava frases como “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais” ou “O povo unido jamais será vencido”, sem perceber muito bem o que dizia, é certo, mas cheiinha de vontade. E tudo isto sempre de cravo na mão.
Hoje a emoção é outra. Será possível sentir-se nostalgia de algo que nunca se viveu? Bom, até ser inventada nova palavra, é mesmo isto que posso dizer que sinto em relação ao 25 de Abril de 1974. E, apesar de ter 27 anos e sentir que as minhas expectativas foram defraudadas – seja porque tenho trabalhos precários mal remunerados ou porque afinal ainda não estou a viver na minha vivenda (pronto, não era preciso tanto, um apartamentozinho bastava) –, acho um absurdo haver quem diga que “no tempo do Salazar é que era”. Seja por que razão for. A Liberdade não tem preço.
Por isso, há cerca de uma semana, não desperdicei a oportunidade que tive de agradecer a um Capitão de Abril o facto de poder chamar totó ao Sócrates ou à Manuela Ferreira Leite, se me apetecer. Desmanchou-se a chorar à minha frente. Antes disso, vi muita gente agradecer-lhe, mas ninguém tão novo como eu – é a única explicação que encontro para aquela emoção toda.
Gosto de celebrar a Liberdade. Sempre. Lembrar-me dela e não a encarar como dado adquirido. Aproveitá-la, apesar de ter nascido oito anos depois de 1974.
Matilde Pais

25 de Abril.
Um ponto de partida para me lembrar das aulas de História. Das memórias contadas pelos meus pais e os seus amigos. Por vezes à volta de uma mesa, com a música de fundo de Zeca Afonso.
Eu, mera observadora. Curiosa da(s) história(s).
Um lugar em Lisboa. O estádio de Alvalade, em 1994, no concerto “Filhos da Madrugada”.
Confesso que a liberdade dos meus 11 anos à data permitiram-me gozar mais a estreia num estádio transformado em palco do que a celebração dos 20 anos da revolução.
No entanto, é essencial dar o devido valor à História. A importância de saber lidar com o passado, recontá-lo e aprender.
Em 2005 descobri uma outra forma de comemorar o 25 de Abril.
Itália, Milão. Cartazes “L’Itali è libera” na piazza Duomo.
Porque a 25 de Abril de 1945, as tropas aliadas libertavam Itália da ocupação.
Hoje podemos celebrar a liberdade.
Matilde Pais
Pedro Cardoso
Tenho a certeza intuitiva da importância desta revolução à portuguesa. Sei que os meus pais sofreram com aquela mordaça de medo que, para muitos, se transformou em confinamento e dor quando a tentaram rasgar.
O meu pai descreveu-me várias vezes o que aconteceu e vejo sempre com emoção os filmes e documentários sobre essa bendita insurreição. Seja pela televisão ou sentado no Carmo, gosto de “sentir” aquele dia. (Para quem conhecer o conceito de inconsciente colectivo, é mais ou menos nesse sentido que utilizo o verbo entre aspas). Precisamente por ser uma revolução que obedeceu aos nossos “brandos costumes”, foi pouco violenta por um lado e lamentavelmente tardia por outro.
Para mim é por isso um metáfora perfeita do misto de orgulho e condescendência que sinto por esta minha pátria.
Pedro Cruz Gomes

O meu 25 de Abril é um autocarro de dois andares de porta atrás, a correr pela minha rua e uma vizinha minha a chamar-me feliz, pendurada no varão, a gritar que também não tinha aulas. Há uma hora que estava na rua a ouvir as pessoas a falar isto e aquilo, muitos sussurros ainda, muito discurso condicionado pelo receio “daquilo” não ir para a frente, muita inquietude também que a minha rua era de pequena burguesia preocupada, como sempre, com as contas do dia de amanhã e a estabilidade, essa estabilidade tão sempre perseguida e que a palavra “revolução” fazia abanar perigosamente.
Havia também palavras novas, todo um léxico que eu, menino de calções e ainda triste com o jogo europeu do Sporting da véspera me esforçava por decifrar. Liberdade. PIDE. Caxias. Democracia (democracia?). Comunismo e socialismo.
Naquela manhã a família tinha toda acordado para além do despertador. A correria para não ultrapassar os horários levara a que niguém se lembrasse de ligar a rádio (as emissões matinais da tv única só começariam muitos anos depois) e foi portanto com surpresa que eu e o meu pai, os primeiros a sair já em passo estugado para a escola, recebemos a notícia de que uma “revolução” estava em curso. Os militares. Esses que um mês antes tinham causado apreensão no telejornal com a revolta das Caldas.
Revolução? E as aulas? E o trabalho? Há? Não há? Bem que o Radio Clube instava as pessoas a não sairem à rua mas o que diriam o chefe, o patrão? O Lumiar era um conjunto de pequenos grupos de vizinhos indecisos. Ainda fomos até à escola. Portões fechados e o porteiro a convidar os poucos que apareciam a voltar para casa. O meu pai conseguiu chegar à rotunda do Relógio onde foi “convidado” a voltar para trás pelos soldados que a interditavam, de guarda ao aeroporto. A minha mãe nem tentou chegar a Santa Maria.
Passei o dia a brincar às revoluções. A dizer que era comunista e a desdenhar os que se diziam socialistas porque “socialismo não quer dizer nada”. Como com os índios, ninguém queria fazer do Caetano.
À noite, lá vimos as imagens do Carmo a abarrotar. Da alegria brutal de todos, uma alegria que nunca percebi de onde vinha porque nunca tinha reparado que havia tantas pessoas sedentas de estar assim alegres.
Quando olho agora aquelas imagens a preto e branco da Junta de Salvação Nacional e vejo aquelas caras sérias, profundamente sérias, percebo que deveriam estar todos cheios de um medo profundo. O poder caira-lhes nas mãos sem terem feito nada para o herdar e nada para o exercer. Receberam-no das mãos de um grupo de putos, seus inferiores hierárquicos (e como pesa a hierarquia castrense!). Parece-me que estava toda a gente a tentar esquecer o cagaço que a liberdade trazia. Como os adolescentes que fugiam de casa e ficavam com demasiado tempo nas suas mãos para decidir.
Passaram 35 anos. Na maior parte destes 35 anos tomei como garantidas as garantias que o 25 de Abril proporcionou. É-me inaceitável uma sociedade sem liberdade de expressão, sem participação activa dos cidadãos na escolha dos destinos do país, sem liberdade e responsabilidade cívica. Num tempo em que a maioria parece ter perdido a capacidade de acreditar na realização da maior parte dos princípios básicos de bom funcionamento de uma sociedade – justiça, acesso à educação, a cuidados de saúde, à habitação, governantes competentes – temo que a ausência destes bastiões comecem a pôr em causa a permanência daqueles valores.
Nunca gostei do folclore que rodeia as comemorações e as anti-comemorações desta data. Por razões diferentes, creio que as duas convergem no afastamento da discussão e da reflexão sobre o que é importante celebrar.
A minha rua e o autocarro a passar com a felicidade da minha amiga parecem-se perigosamente no presente com um regime que se começa a dissolver.
Estas palavras são o meu braço esticado na paragem a fazer sinal ao motorista para ficar por aqui.
Rita Morais
25 de Abril Sempre…
Vêm-me sempre lágrimas aos olhos quando ouço a voz do Zeca a cantar Grândola Vila Morena por cima dos passos de marcha que se repetem no início da música. É estranho. Não sei se me comove a ingenuidade e a ilusão de quem acreditou que a revolução era para sempre ou se me emociona a força daquela voz, daquelas palavras e a emoção das que o seguem e que me fazem tremer o corpo a partir do âmago.
Não vivi o 25 de Abril… sou aquilo a que chamam filha da revolução, mas sou descendente de revolucionários e comunistas de várias gerações. Toda a vida ouvi histórias das reuniões que se faziam da Rua da Furnas nas barbas da PIDE, dos panfletos que se lançavam do alto do Éden, dos tios que foram presos, da avó que largou tudo e todos na aldeia para vir para Lisboa e estar mais perto da cadeia e das filhas que ela encerrava. O meu tio acabou em Peniche onde esteve por 4 anos e de onde escreveu cerca de 30 cartas à minha mãe, irmã mais nova, de quem tentava esconder o sofrimento falando de banalidades que com certeza passariam à censura da PIDE. Estas cartas li-as há pouco tempo e foram um verdadeiro murro no estômago.
Cresci a vestir os casacos de lã que as minhas tias tricotaram em Caxias para os meus primos e que mais tarde herdei.
Cresci a adormecer nos ensaios do Coro da Academia dos Amadores de Música embalada pelas vozes dos familiares e amigos que cantavam em frente ao maestro Fernando Lopes Graça de quem ouvi a voz muitas vezes mas de quem me lembro essencialmente da cabeça vista por trás, das costas curvadas e dos braços enérgicos.
Cresci também a cantar todas as canções heróicas que ainda hoje me saem da boca para fora sem hesitação e cuja letra sei na ponta da língua.
Cresci a ouvir os parabéns com a melodia da Internacional e ainda hoje, por vezes, me engano.
Se calhar choro por isto… pelas pessoas extraordinárias que me educaram, por algumas dessas pessoas terem falecido (algumas vítimas de sequelas deixadas por torturas da PIDE que lhes transformaram os 20 anos seguintes em inferno) e terem levado com elas mais um bocadinho desta força que agora é moribunda num mundo onde tudo o que está para além das fronteiras do nosso conforto pessoal deixou de ser um problema de todos.
Choro por me sentir em falta e perceber que, também eu, desde há muito tempo, faço muito pouco para lutar por aquilo em que acredito para um futuro mais justo e mais solidário traindo assim quem tanto fez por todos nós.
Choro porque todas estas músicas me fazem lembrar o olhar triste das pessoas quando me falam do antes e do calor que as enche quando falam de Revolução.
Fascismo nunca mais!
Tiago Figueiredo

Eu nasci depois. Do 25 de Abril só tenho as histórias contadas pelos meus pais, sobre aquele dia e o que se passava antes. Nos anos 50, ambos entrados em Belas-Artes, e insatisfeitos com as precárias liberdades políticas, culturais e intelectuais do regime, aderiram a movimentos estudantis considerados subversivos. Um dia, um colega foi apanhado a escrever numa parede uma frase contra o Pacto do Atlântico e a falta de investimento na Educação. O Director da Escola moveu-lhe um processo disciplinar. Alguns colegas juntaram-se e assinaram um texto de solidariedade. Foram todos expulsos da Faculdade. Os meus pais tinham assinado.
A minha mãe pertencia ao MUD Juvenil, um movimento estudantil inofensivo, mas que levantou suspeitas ao regime. Todos os membros foram a julgamento. Como se descobriu que havia alguns deles que tinham também umas reuniões secretas no Partido Comunista, esse sim já tido como perigoso para a segurança da Nação, os juízes resolveram fazer uma conta simples: qualquer elemento do MUD Juvenil seria uma potencial ameaça à paz social do país.
A minha mãe foi condenada a 2 anos de prisão, mas cumpriu 4, todos em Caxias, pelas chamadas “medidas de segurança”. Lá conheceu outras mulheres, igualmente atónitas pelas vielas absurdas que as tinham levado àquela cela de 12 pessoas.
Uma era enfermeira. Tinha assinado uma petição para mudarem uma lei que as impedia de casar. Nunca pensou em política, nem queria pensar. Queria casar. Tinha um diário. No dia em que conheceu o primeiro namorado, escreveu mpb. Meu primeiro beijo. O Juiz condenou-a a vários anos de prisão, com a irrefutável prova de devoção aos ideais comunistas expressos naquele mpb: meu partido bolchevique. Foi um pretexto. O crime dela foi ter querido casar e ousar assinar uma petição.
O meu pai ainda foi para o Porto, prosseguir os estudos em pintura que estava impedido de fazer em Lisboa, mas depois embrenhou-se mais a fundo na resistência ao regime fascista, aderiu ao PCP e fugiu para a clandestinidade. Não punham bombas nem matavam ninguém. Era um jogo do rato e do gato com os inspectores da PIDE, de identidades falsas, mudança de morada de um dia para noite, escrita de panfletos para espalhar a palavra. Acreditava-se numa sociedade diferente, mais igualitária, mais justa e livre. Andou sete anos nisso. Uma noite, em Coimbra, foi preso em casa. Passou mais sete anos em Peniche.
O amigo Sá Nogueira, pintor que partilhava o rés-do-chão do nº12 da R. das Taipas, contou-me um dia: “Quando o revi no atelier regressando aos pincéis, fiquei com a sensação deprimente que o quadro que pintava era o mesmo que deixara incompleto há 14 anos atrás. O mais trágico do regime era este assassinato de talentos. Roubavam-lhes irremediavelmente anos de vida e desenvolvimento.”
Vários empregos depois, fruto de acasos, os meus pais reencontraram-se. Naquele tempo da fotografia lá em cima. E algures por lá devo ter nascido eu, já depois desse dia mágico, de tanques a entrar em Lisboa, de canções-sinal cantadas na rádio para ficarem na história do país.
Uma revolução desligada desses anos de panfletos, de ideologias, de filosofias sociais. Uma revolução feita por militares fartos de uma guerra colonial interminável. “Mas então valeu a pena todos esses anos de clandestinidade e prisão?”, perguntei ao meu pai. Respondeu-me qualquer coisa como haver esforços que parecem uma gota de água no oceano mas que para algumas pessoas são irresistíveis. Mas que a História era como um rolo compressor, que as condições gerais dos homens ditavam-lhe o rumo e não as filosofias feitas por eles. Lembro-me que tivemos esta conversa no metro, entre o chiar de uma curva e o ruído das portas a fechar, mas no meio de toda a gente, sem medos.
Lembro-me do olhar triste do meu pai, nesse sofrimento mudo de quem lhe foram roubados anos de vida por querer pensar de maneira diferente. E da conclusão amarga da minha mãe, que não se quis ver metida nessa alhada política e viu a vida transformada, sonhos destruídos, caminhos barrados.
Mas bebi-lhes a emoção desse dia de libertação, dos tanques a entrar em Lisboa, do cerco ao quartel do Carmo e das pessoas eufóricas penduradas nas árvores a querer assistir. E as aventuras posteriores, do Verão quente de 75, do 25 de Novembro, o cerco à Assembleia da República. E depois, isso já me lembro, de andarem uns tipos a pôr bombas que deixavam Lisboa sem água e termos de ir a umas fontes públicas abastecer-nos. Isto em plena Lisboa, perto do Bairro Alto. Já lá vão uns anos… Havia muito menos carros e um casal de camponeses vinha aos Sábados de carroça puxada a burro vender fruta e legumes à minha rua.
E agora, 35 anos passados, vejo-me nesta salganhada política que me deixa sem conseguir aderir nem acreditar em nada, a sentir ser possível ser mais racional ser-se do Benfica ou do Sporting do que do PS ou PSD, e a ouvir dizer que a revolução falhou. Qual revolução? Se falhou trocarmos um Salazar por um Cunhal, ainda bem que falhou. Há corrupção na política? A política e os políticos estão podres? Há. Estão. Mas pelo menos agora podemos estar aqui a escrever uns aos outros.
E se alguma coisa tiver de acontecer, está muito mais dependente da bomba relógio da História, das condições dos homens, do que das suas filosofias. Mas também me é irresistível pensar que as gotas de água são importantes para a barragem transbordar.





Só consegui ver agora o resultado final do post. Está um espectáculo!!! Parabéns a todos e obrigada por partilharem. Eu gostei de partilhar. =)
Obrigada pela partilha.
Ia fazer aqui um comentário, mas avisaram que era longo e então mudei-o para o blog: restos-de-mim.blogspot.com
Bolas! Isto é muito desagradável. Jé fui ver ao IntenseDebate porque acontece isso. Não és a primeira pessoa a queixar-se. Aparentemente o problema é do Internet Explorer. Podes tentar com o Firefox? Desculpa. Já enviei um email aos senhores do IntenseDebate a ver se resolvem o problema.
Aqui estou eu a tentar de novo.
Eu só nasci 3 anos depois do 25 de Abril de 74 e a primeira memória que tenho da revolução foi, numa das reuniões que a minha avó costumava ter em casa dela, com umas "irmãs" protestantes para orarem e lerem a Bíblia, a conversa não ter agradado muito a uma delas e a minha avó ter-se sentido muito ofendida quando lhe disseram que ela devia pertencer à PIDE.
Ora eu devia ter uns 6 ou 7 anos e não sabia o que era a PIDE, mas vi que coisa boa não devia ser porque a minha avó ficou tão transtornada com o comentário que as pôs fora de casa naquele instante.
É verdade que a minha mãe e a minha tia sofreram muito com o autoritarismo e conservadorismo da minha avó.
Liberdade não era realmente palavra que existisse lá em casa (nem para o meu avô, coitado!)Mas 6 -7 anos depois a liberdade existia para todos e também para a minha avó.
Só que a minha avó é muito fiel à sua religião. Se a Bíblia o diz é porque é verdade, não há quem a convença do contrário (é vê-la a dar baile aos católicos e testemunhas de jeová).
Felizmente a mentalidade dela tem vindo a acompanhar as mudanças sociais, a ponto de ela aceitar perfeitamente que os netos escolham não se casar.
Mas daqui levei uma lição que me tem acompanhado:
A hipocrisia está em quem tem o poder, seja na política seja na religião.
Boa, boa João
E eu a julgar que nos ias fazer uma análise económica do 25A… 
Grandes palavras, grandes memórias… do pós-25. Devemos ter andado perto, eu também fui até ao estádio 1º de Maio no primeiro 1º.
Susana, obrigado pela partilha!
Belo post! Parabéns e agradecimentos a todos!
Sou mais velha que vocês. O 25 de Abril aconteceu poucos meses depois de eu ter completado 18 anos.
Lembro-me mais ou menos bem desse dia, que começou antes das 7 da manhã, com um telefonema de uma colega: – não saias de casa que houve um golpe de Estado!!!!
Houve o quê??!!
Não estava a perceber muito bem o que se passava. A minha consciência política não ia muito além de saber que era perigoso ficar a conversar mais do que 15 minutos com uma ou duas pessoas numa qualquer esquina de Campo de Ourique (onde morei desde que nasci até Dezembro passado) e que amigos dos meus amigos, que já andavam na Faculdade, eram perseguidos e presos por não concordarem com o regime. Experiência própria, a mais arrojada que tinha, era ter fugido dos cães da polícia de choque (por tentar assistir a um qualquer concerto de rock que era suposto ter-se realizado no Estoril) e ter andado a distribuir folhetos “Vota MDP/CDE” pelas mesas dos cafés, em 73.
Mas se havia uma revolução em curso, não era em casa que eu ficar!
Saí para a rua mais depressa que o costume e foi na rua que passei grande parte do dia (indiferente à natural preocupação dos meus pais. Na altura não havia telemóveis….).
Vi soldados na Baixa, ouvi rajadas de metralhadora no Carmo e fotografei um helicóptero de uma das janelas do 2º piso do edifício dos Correios dos Restauradores, onde trabalhava desde que um valente chumbo numa disciplina do (antigo) 7ª ano me tinha adiado a entrada em Belas Artes.
Foi um dia memorável!
Mas, desse dia, o que ficou gravado na minha memória não foram tanto os factos a que assisti mas sim a emoção que pairava no ar. Uma grande alegria sim, mas uma alegria indefinida, contida, como se o medo ainda ali estivesse (e, pelo menos para mim, estava).
O que mais me comoveu? O que consigo reviver ainda hoje? – Foi aquilo que se senti ao ver a esperança espelhada no olhar das pessoas com quem me cruzei.
Obrigado pela partilha, Luísa!
Que bonito post, que ideia maravilhosa. Fico triste de ter chegado um ano depois ao viver, gostava de ter participado. Fico feliz de ter começado este 25 de Abril com esta leitura. Emocionante.
Sim, sim, vivi intensamente o 25 de Abril. Tinha 13 anos mas já andava envolvida na luta anti-fascista,no liceu Rainha D. Leonor, com um processo disciplinar por ter faltado ao 'decoro ao liceu' por ter sido presa no 16 de Dezembro de 1973, no Hospital de Santa Maria, numa AG do ensino secundário. Sabia que corria o risco de ser expulsa. Na noite do dia 24 tinha estado no Coliseu a ver uma ópera – a Traviata, penso – e no regresso a casa, de carro, cruzámo-nos com imensos 'níveas', ou seja, carrinhas de polícia, num movimento pouco habitual. Acordámos de madrugada com um telefonema de uma amiga que vivia na Bélgica, a dar a notícia, foi um alvoroço: não houve aulas, andei na rua, com o meu pai, de carro, a fotografar. Era tudo um pouco irreal, ainda não se sabia o que iria acontecer, a festa veio depois, nos dias que se seguiram: o primeiro primeiro de Maio, num dia de calor grandioso, o explodir da festa e da alegria a chegar ao Inatel, os comícios improvisados no Rossio, as manifestações contra a Guerra Colonial, a descoberta das ruas de Lisboa cheias de vida, de uma vida subitamente diferente! Foi o princípio de uma mudança inesquecível, de uma adolescência que teve a sorte, a felicidade de passar por estes anos!
13 anos presa? Que regime… Obrigado pela partilha, Graça.
… tinha 10 anos e lembro do meu pai nos ter dito: "o que está a acontecer é muito bom para vocês porque vão crescer em liberdade". Só entendi, parte do que ele disse, quando mais tarde vi os presos a sair de Caxias – algo que me impressionou bastante.
O teu pai tinha toda a razão, Ana. Obrigado pela partilha!
Anos mais tarde (2001), já com uma criança com 5 anos que levo para a sua primeira manifestação do 25 de Abril, na praia do Guincho ela explica a um amigo o seu significado:
" Foi quando os bons venceram os maus com flores nas pistolas e depois vão para Lisboa [interrompe para tirar uma dúvida: " _mãe como se chama aquele passeio a pé com muita gente em que a Manela me arranjou uma bandeira? _ A Manifestação.. _ É ...], para a manifestação onde se grita "Somos todos filhos de emigrantes, 1ª, 2ª, 3ª geração" e também "25 de Abril Sempre, Fascismo nunca mais".
Lindo, Ana!!! Que bom ter este testemunho aqui no Viver. Um bom 25 de Abri para ambas as meninas e mais amigos e amigas.