e assim se fez o mural do mário dionísio

Nas gavetas do Centro Mário Dionísio existe uma maquete de finais dos anos 40 para um mural que nunca foi concretizado. Era para uma parede de cinco metros de comprido do café «La Gare», junto à Estação do Rossio, café que também nunca chegou a ser feito, com projecto dos arquitectos Castro Rodrigues e João Simões. Ora, em frente ao Centro, sito no Largo da Achada, que está para abrir ao público em Setembro, há um muro abandonado, que pertence à Câmara Municipal de Lisboa.

No intervalo da tarefa muito chata de catalogar os livros que o Mário Dionísio lia, a malta do Centro Mário Dionísio (Eduarda Dionísio, Victor Silva Tavares, Regina Guimarães, Jorge Silva Melo, João Rodrigues e outros), resolveu achar que era boa ideia transpor o desenho do mural para esse muro. Mas mal se começou a desenhar, aparece ali por acaso um empreiteiro que diz que não vale a pena o trabalho porque na segunda-feira seguinte, 30 de Março, viriam as máquinas derrubar o muro porque já havia para ali um projecto adjudicado pela Câmara de 300 mil euros para terraplanar aquela zona de modo a ter acesso a um outro muro que há por trás e que está em perigo de ruir: a maior ironia é que jaz atrás desse outro muro o atelier de pintura da Graça Morais, de modo que a Câmara vai por assim dizer pisar o Mário para salvar a Graça.

Seja como for, a malta do Centro Mário Dionísio respondeu que não faz mal. Pintamos na mesma o mural e depois os senhores venham destruí-lo, que a arte é assim mesmo, éfemera. E foi feito. Com a ajuda de quem quis aparecer, seguindo a partitura da maquete mais ou menos porque também ela estava inacabada. Foi no dia 28 de Março. Nesse dia também houve leituras de poemas de Mário Dionísio, também por quem quis aparecer, no Largo da Achada, em volta do chafariz, mas logo por azar estava uma ventania desgraçada, que fazia ricochete nas esquinas e remoinhava no meio do largo. Era quase tempestade. Mas houve um momento estranhíssimo, quase misterioso. A escritora Eduarda Dionísio lia um poema de pé, aquele que diz « O irrecuperável recuperado ei-lo aqui sorrindo», aquele que diz «O que não volta eis volta por ignoradas mãos», e quando a Eduarda chegou àquela parte em que diz

«possível o recomeço / possível o sobressalto / possível o sonho solto / possível um mundo novo / possível o impossível»,

o vento, palavra de honra que isto é verdade, deixou de rodopiar e começou a empurrar a Eduarda pelas costas, como que impelindo aquelas palavras para a frente.

Pintou-se o mural, está pintado, mas as escavadoras ainda não vieram. E não sabemos quando virão. Todos os dias passam por ali alguns daqueles pintores agora fotógrafos, para não deixarem passar esse momento mais do que solene das escavadoras a avançarem sobre o mural que  podemos dizer que já tem pelo menos uma semana de vida.

aproveite quem lê isto para lá ir ver enquanto dura. pode ser que amanhã já seja tarde. pode ser que daqui a muitos anos ainda haja quem espere as escavadoras, de máquina fotográfica em punho.

Pormenor visto do interior do Centro Mário Dionísio

Pormenor visto do interior do Centro Mário Dionísio

Fotografias: Sofia Trincão.

Comments

20 Responses to “e assim se fez o mural do mário dionísio”
  1. marta818 says:

    sabes Miguel?!
    são energias….

  2. PedroCG says:

    Boa estreia, Miguel! E agora Josés – o Centro abre quando, quais são os objectivos? Já há actividades programadas? Conta mais! Não nos queres falar um pouco (muito!) do Mário Dionísio?

  3. miguelcaldas says:

    Obrigado, PedroCG. Agora os Josés que que me pedes merecem provavelmente outro artigo. Para isso tenho de me preparar para não dizer muitas asneiras. Fica prometido que voltarei ao Centro Mário Dionísio. Para já digo só que abre em Setembro, que vai ter um centro de investigação, tem a biblioteca do Mário dionísio, com os livros que lhe pertenciam, os quadros que pintou, a obra que escreveu,e vai ter uma outra biblioteca mais aberta ao público em geral, com empréstimos de livros, etc. E sei que será mais do que isto, será uma coisa virada para fora, com coisas a acontecerem, mas para já não sei bem o quê.

  4. emeandeme says:

    Sugiro ao Viver que promova a pintura desse belíssimo mural na quinta das conchas,junto à rotunda em construção, onde se substituiu gradeamento por muro, o que retira profundidade de vistas a quem vem da Mª H V Silva. Assim era um mural bonito, preservava-se uma obra de arte. De outro modo, serão certamente os belos "random-grafitti" que preencherao o espaço

  5. PedroCG says:

    Sim, sim que boa ideia! O que será necessário para fazer isso de modo a que não venha um bem intencionado funcionário pintá-la dois dias depois? O ok do Vereador responsável?
    Voto nessa campanha – Alt'Arte de Lisboa!

  6. moradora says:

    Se não der para pintar na rotunda. que tal propor pintar este mural numa escola?
    quais são as dimensões?
    Vou propor aos meus superiores e ver no que dá!
    É demasiado belo e rico para se perder.

  7. Tiago says:

    Mas era isso que se estava a propôr no outro post lá mais para cima, cara moradora. Este mural, ou outro, naquele muro junto à rotunda, ou noutro. Tudo se pode discutir e chegar a consenso. É preciso é que as pessoas estejam todas com vontade de fazer alguma coisa construtiva pelo bairro e consigam dialogar.

    Já agora, o Miguel disse-me que este mural do Mário Dionísio já foi derrubado pela CML.

  8. moradora says:

    Assim sendo vou falar com os meus superiores e depois digo qualquer coisa. Se entretanto o João ou outro vizinho conseguir uma autorização, eu peço aos pais dos meus alunos e vamos lá de roupa velha e pincel na mão. Quintas feiras à tarde são melhores para a nossa turma!

  9. moradora says:

    Contactei os meus superiores.
    Preciso de saber quais as dimensões do mural.
    Quem arranja as tintas?
    e quando podem vir à escola para falar com professores e alunos sobre Mário Dionísio?
    Como vos posso contactar directamente?

  10. moradora says:

    Temos uma escola e meninos interessados, vocês continuam interessados?

  11. Tiago says:

    Claro que sim, continuamos interessados. Mas sabemos que é necessária muita gente para este projecto poder ir avante. Por isso enviámos um mail a todos os parceiros do Grupo Comunitário da Alta de Lisboa, procurando saber se as várias instituições achariam a ideia interessante.

    Mais uma vez repito: a ideia não era apenas pintar murais. Era envolver artistas de renome, convidá-los, fazer murais onde isso fizesse sentido, com materiais duráveis, mas também organizar equipas de limpeza de graffittis e tags que proliferam pela Alta. Um projecto que envolvesse toda a comunidade escolar e também os idosos reformados que quisessem envolver-se.

    Sei que amanhã há reunião do GCAL. Apesar de só termos recebido uma resposta das dezenas de instituições que pertencem ao Grupo, pode ser que da reunião saia alguma coisa.

    Aguardemos, portanto.

    Mas fico muito contente que a EB 34 tenha gostado da ideia e esteja com vontade. Obrigado!

  12. moradora says:

    A nøs interessava-nos o mural de Mario Dionisio
    Basta apenas a autorização do Conselho Executivo

  13. moradora says:

    Há mais gente interessada?
    Miguel como posso contactá-lo directamente?

  14. emeandeme says:

    Sim, definitivamente, o mural de Mário Dionísio seria Muuiitooo Interessante! Bela obra! E seria muito bom ver os jovens a envolver-se na sua comunidade envolvente! Parabéns à Escola EB34. Só uma dúvida – não será demais para crianças do Básico??

  15. hrelogio says:

    Contem com mais duas mão para ajudar.

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