E a Alta de Lisboa, precisa de um Centro Cultural?
17 March, 2009 by Tiago Figueiredo

Em 2005 foi apresentado o projecto do atelier do Arq.º Álvaro Siza Vieira para o Centro Cultural a implantar no Eixo Central, mesmo em frente ao talhão do Parque Oeste. Como o Eixo Central estava pendente por atrasos da CML na entrega de parcelas de terreno à SGAL, a entidade a quem cabe a construção da avenida, o projecto foi adiado.
Entretanto a mesma CML resolveu fazer uma leitura zelosa do PUAL e acabou por inviabilizar o projecto do Centro Cultural por não respeitar as áreas previstas. No PUAL, datado de 27 de Outubro de 1998, previa-se uma Central Telefónica com uma área significativa. Entretanto a tecnologia evoluiu e a mesma central telefónica ocupa uma área substancialmente menor.
A SGAL entendeu, e bem, que a cidade ficaria mais bem servida com um grande Centro Cultural, e investiu nesse sentido, contratando a equipa de Siza Vieira. O projecto inclui uma sala com 1200 lugares, outra com 450, e um edifício residencial. O exterior será um espaço ajardinado, fazendo a ligação natural entre o Parque Oeste e o Eixo Central.
Ontem, foi discutido o Plano de Pormenor do Parque Mayer. O Viver não teve oportunidade de comparecer, mas diz quem viu que foi interessante. Discutiu-se a necessidade de mais uma grande sala de espectáculo em Lisboa. Houve argumentos para os dois lados. Há quem prefira recuperar os antigos teatros, outros apostam na construção de raiz de um grande projecto.
A pergunta, transposta para a Alta de Lisboa, faz tanto sentido como no Parque Mayer? Lisboa não tem a mesma distribuição populacional de há vinte anos, quando o declínio do Parque Mayer começou. Entretanto o problema agravou-se e o Parque Mayer ocupa a memória das pessoas mas já não as vidas. Estão garantidas condições demográficas para o sucesso do investimento de milhões que se promete? Esperemos que sim.

E esperemos também que a CML, nesta recente mostra de vontade de voltar a apostar na Alta de Lisboa, se lembre que pode ter aqui uma sala de espectáculos a um custo muitíssimo reduzido, valorizando o bairro – não só a Alta, como Telheiras, Lumiar e Campo Grande – e trazendo nova oferta cultural à população.
Já existe projecto, existe vontade do parceiro privado. Falta vontade política, como quase sempre. Infelizmente.
A notícia do PÚBLICO:
Lisboa precisa de mais uma grande sala de espectáculos?
17.03.2009, Ana Henriques
Possibilidade de construção de recinto para duas mil pessoas no Parque Mayer
e restrições ao uso do carro no local estiveram ontem em debate
Lisboa precisa de mais uma sala de espectáculos, qualquer coisa cujas dimensões estejam a meio caminho entre os cinco mil lugares do Coliseu e os pouco mais de mil do Centro Cultural de Belém? O assunto esteve ontem em debate, durante a apresentação dos termos de referência do plano de pormenor do Parque Mayer.
Os termos de referência são as regras pelas quais se vai orientar o planeamento urbanístico daquele pedaço de cidade, que a Câmara de Lisboa quer transformar num pólo lúdico-cultural, com teatros, bares, restaurantes, galerias de arte e um hotel.
Manuel Aires Mateus foi o arquitecto que ganhou o concurso para desenvolver a reabilitação da zona. Foi ele quem, perante várias objecções da assistência sobre a viabilidade de construir um teatro para duas mil pessoas, quando os que existem raramente enchem, explicou as potencialidades da ideia: “Criar novos públicos. Quando o Centro Cultural de Belém foi projectado, havia a sensação de que quer as áreas de exposição, quer os auditórios tinham dimensões megalómanas. Hoje é pequeno para as necessidades. A grande escala induz procura.”
Não que esteja totalmente assente que o futuro Parque Mayer venha, de facto, a ter um equipamento cultural destas dimensões. “Há determinados espectáculos que o justificam, mas há que verificar a viabilidade de uma sala destas”, acautelou o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado. Na realidade, como acabou por explicar aos jornalistas no final do debate, houve já vários promotores de espectáculos que fizeram saber à câmara que alinhariam num projecto deste género, algo que, segundo o vereador, poderá custar entre 18 e 24 milhões de euros, equipamento já incluído. Mas se Aires Mateus se referiu a este novo equipamento como um teatro adaptável a várias funcionalidades, como a ópera, já Salgado vê o futuro recinto mais virado para os espectáculos musicais.
O teatro de revista manter-se-á, assegurou Aires Mateus. Há boas possibilidades de isso acontecer, mas seja como for, os concessionários dos vários equipamentos culturais que a autarquia erguer no recinto, com ajuda das verbas do jogo do Casino de Lisboa, terão de se candidatar ao concurso que o município há-de lançar para o efeito, respondeu Salgado. Os mais recentes planos da autarquia para o local incluem um hotel e três teatros – o Capitólio, que vai ser reabilitado, o Variedades, feito de novo ou recuperado, e a tal terceira grande sala.
O facto de o futuro Parque Mayer ser mais um pedaço de cidade com ruas e praças, mas destinado aos peões, devendo ser ali vedada a circulação de carros e restringido o estacionamento, preocupou vários dos intervenientes do debate de ontem – funcionários do Museu de História Natural, arquitectos e moradores da zona. Mas a câmara não parece disposta a desistir de modificar os hábitos enraizados de quem leva o carro para todo o lado, até porque a zona está bem servida de transportes públicos. “”Eu nunca vi carros em redor da Tate Gallery nem do Museu de História Natural de Londres”, observou o vereador Manuel Salgado. “Na maioria dos centros históricos do mundo não circulam carros.”





Não quero parecer um elitista pretensioso mas preferia mil vezes o centro cultural ao centro comercial…aliás o centro comercial não é de todo necessário aqui na alta.
Eu também preferia, desde que se garantisse uma programação regular. Lembro-me sempre do Teatro Municipal da Guarda, que parece um pequeno CCB. À Alta fazia falta qualquer coisa assim, com actividades variadas que trouxessem gentes de todos os lados. Olha, uma Fábrica do Braço de Prata também era excelente. Até podiam juntar os dois projectos, aproveitando a saída da Fábrica do local onde está actualmente, quando começarem as obras do projecto do Renzo Piano, e dando-lhes o espaço a explorar.
Não vi o projecto, mas espero que tenha várias salas para eventos diversos e simultâneos e não só os dois auditórios.
Mas tanto a malha 5 (o tal centro comercial) como o Centro Cultural são importantes para a Alta de Lisboa. A malha 5 é muito mais fácil de dinamizar, mas o Centro Cultural trazia prestígio e uma oferta completamente diferente.
O Sr. Salgado nunca viu carros à volta do Natural History Museum em Londres? Ai, nem sei que dizer. Provavelmente nunca viu o museu. Porque eu vi muitos carros, autocarros, metro e tudo o resto. Quanto à Tate Gallery a mesma coisa. Será que ele queria dizer a Tate Modern? Bom, viu barcos por lá e todos os outros meios também. A não ser que nunca lá tenha ido também!
Eu preciso de um museu, galerias de arte… Afinal isto é uma terra de gente criativa!
Há várias ideias que se extrapolam do discurso do vereador Manuel Salgado que merecem ser aprofundadas.
Os teatros vão ser objecto de concurso público para atribuição da exploração? Lá se vai a revista… Será possível apresentar-se um projecto credível que bata as vantagens das máquinas de produção de musicais em funcionamento? Com o teatro de revista moribundo com toda a gente diz como garantir a viabilidade financeira que vença o concurso?
Quanto às acessibilidades, faço respeitosamente lembrar que, entre a opção de ir a pé ou deixar o carro junto à entrada do teatro, os portugueses escolhem sempre a menos cansativa. Não é teoria minha – veja-se o sucesso dos centros comerciais face às lojas da Rua Augusta…
A Alta de Lisboa precisa de um Centro Cultural, sim!
Traria ao bairro gente de outras zonas da cidade e dava-lhe outra dimensão.
Também, em termos de urbanismo, um projecto de Siza Vieira pensado para criar coerência entre o Parque Oeste e o Eixo Central,
…… seria certamente vantajoso no conjunto do PUAL.